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terça-feira, 7 de junho de 2011

Satanice

Todo dia Joana acordava às cinco e meia para cuidar da sogra. Levantou-se aquele dia, cuou o café, levou-o ao marido e à mãe dele, ambos ainda sonoletos. Há algum tempo, o marido, Geraldo, deixara de dormir com a esposa, alegava que a mãe necessitava de maior atenção. Toda justificativa tinha como premissa básica o câncer no reto de Dna. Mariana, afinal o sofrimento era realmente intenso. Entrou no quarto da sogra, Geraldo estava abraçado de conchinha com a velha, e apenas deixou a bandeija sobre o canapé, em seguida, pôs-se a lavar as louças do dia anterior. Dna. Mariana, como de costume, levantou um pouco o pesado corpo, provou o café e reclamou a falta de açucar...

O dia apenas começava! A velha bebeu aquele café, apesar da reclamação, enquanto Geraldo vagarosamente levantava e se punha a observar o dia pela janela. Joana, moça humilde e carinhosa, casara-se com aquele sujeito por motivos ainda não bem esclarecidos. O fato é que queria uma família, filhos, cães etc., entretanto, nada disso tinha sido proporcionado a ela, nada! Um ano após o casamento, ela teve que cuidar da sogra, isso porque Geraldo convencera a esposa a não trabalhar. Ela aceitou, casaram-se e uma nova vida foi dada a ambos.

O provedor da casa já tinha se arrumado e ido ao trabalho. A velha, deitada, clamava pelos anos idos... E a casa, a cada instante, ficava ainda mais brilhante. Joana, com um novo produto revolucinário de limpeza, deixava tudo impecável. Esfregava daqui, dali, e o brilho escondia uma vida inteira! Estava a limpar o armário, local que guardava as fotos dos anos de juventude, e, sem querer, esbarrou num portarretratos, que chegou a cacos em milésimos de segundos. Joana ajoelhou-se sobre os cacos, machucando-se, e pegou a foto. Ela estava abraçada com Geraldo, época de namoro, e lá no fundo, encostado num carro, um rapaz observava o casal, era o ex-namorado, João. Num ascesso de fúria, Joana rasgou a foto!

O dia continuou... Preparou o almoço como quem come marmitex fria e serviu à velha. Diante de intensas reclamações, a doente comeu um pouco. Disse que estava cheia e deixou o prato perto da cama. Ao recolher os objetos sujos, Joana tropeçou no próprio pé, e deixou o prato cair... espatifou-se ao chão. Cautelosamente, retirou os cacos e varreu a quarto. O café da tarde foi servido, no horário certo, exatamente! E, para manter o costume, o marido chegou às 18:45... Geraldo entrou e foi direto ao quarto da mãe, abraçou-a e conversou por alguns minutos com a velha. Em seguida, tomou um banho de gato e já estava pronto, iam à igreja, como nos dias anteriores. A esposa, que já não tinha vaidade alguma, tomou um banho mais rápido que o marido. Prontos, deixaram a velha reclamando e foram louvar a deus.

Entraram igreja adentro e tudo estava como de hábito, somente os obreiros não estavam à porta. Geraldo chegou a comentar com Joana, mas logo justificou dizendo que o pré-culto devia ter se prolongado - todo dia, antes de iniciar o louvor, algumas pessoas, aquelas mais usadas por deus, se reuniam para decidir o que aconteceria durante o culto. Sentaram-se aos fundos, no mesmo lugar de antes, e esperaram começar os hinos. Não conversavam em respeito à casa do Senhor, mas de quando em vez Geraldo observava Joana de soslaio. Ela, claro, já sabia o que significava aqueles olhares: "vamos orar pela mamãe!" - E oravam mesmo!

Alguns irmãos chegavam e, à maneira de Geraldo e sua esposa, sentavam-se e danavam a orar. Oravam pelas velhas, pelo culto, pelos governantes e pelo pastor, principalmente. Nove em ponto e o culto ainda não começara, estranho! Afinal, ser ovelha do pastor Rubem tinha uma vantagem, a pontualidade e organização. Quinze minutos de atraso e os fiéis começaram a cruzar os olhares, o que significava mais oração. Todos orando, orando mais e mais! Meia ora, e Joana já tinha perdido a concentração, mas o olhares do marido diziam para voltar-se a deus sem consolo. Nenhuma voz se ouvia no templo, nenhuma, porém muitos pedidos chegavam ao mesmo tempo aos céus...

Passado quarenta e cinco minutos de oração, um rapaz encapuzado saiu da sala do pré-culto, enquanto outros fechavam as portas que conduziam à saída. O rapaz anunciou a volta de Jesus e pediu as bolsas, carteiras, anéis... enquanto Joana ria, os fiés do pastor Rubem continuavam as preces, ainda com mais fervor.

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