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quarta-feira, 8 de junho de 2011

Em nome da MERDA, amém!

Minha mão está suja./ Preciso cortá-la./ Não adianta lavar./ A água está podre./ Nem ensaboar./ O sabão é ruim./ A mão está suja,/ Suja há muitos anos./ Carlos Drummond de Andrande, A mão suja


Ignácio caminhava toda tarde pelo Parque Areião, mas naquele dia resolvera ir pela manhã. Era comum, durante a caminhada, encontrar colegas da faculdade, alunos e antigos professores. Geralmente, esperava um tempo antes de iniciar as quatro voltas, uma vez que adorava observar os garotões malhando e comentando sobre mulheres. Já tinha concluído que os tempos eram outros! No início, aquele lugar, que frequentava por indicação médica, era exclusivo aos homens. Entretanto, nos últimos anos, Ignácio percebera que as mulheres estavam tomando conta do pedaço, com uma diferença básica: comentavam sobre homens e mulheres, sem distinção de gênero.

 
Ignácio, como todo mortal do século XXI, não só fazia caminhadas, como tinha uma vida social um tanto complexa. Na faculdade, ministrava aulas de literatura contemporânea. O que chamava a atenção era que, em quase toda explanação do professor, deixava escapar uma concepção de vida um tanto estranha. Espalharam inclusive um boato malicioso sobre Ignácio... Diziam que, numa análise sobre a poética Drummoniana, Ignácio teria dito: "Resumir Drummond é fácil, basta você aplicar a teoria da merda: da merda viemos, à merda voltaremos!". Digo ser boato porque a aula não foi gravada, apenas por isso! Outros incidentes também foram mencionados pelos ex-alunos do professor. Contam que Ignácio estava num bar, e, depois de alguma bebida, desabrochou a falar. Disse que os humanos são merdas ambulantes! Que não só os seres humanos são merdas, mas toda essência viva carrega a tonalidade de fezes. Ainda citou Ferreira Gullar dizendo em alto tom: "Introduzo na poesia/ a palavra diarréia./ Não pela palavra fria/ Mas pelo que ela semeia". Diante do espanto geral, Ignácio ainda completou: "Da merda viemos, à merda voltaremos!".

 
Com o passar do tempo, Ignácio começou a levar muito a sério os seus filosofemas. Os banhos já não eram regulares, os dentes, raramente escovados, e os cabelos deixaram de ser penteados... Como Ignácio não era casado, muito menos possuía filhos, as pessoas demoraram a perceber o que estava a acontecer com ele. O fato é que as aulas estavam cada vez mais repletas de filosofemas ignacianos - como passaram a ser chamados. Dizia que os estudantes, no lugar de ler Rubem Fonseca, deviam se atirar ao submundo brasileiro. Deviam, ao invés de ler literatura marginal, procurar fazer uma prática marginal, que não reproduzisse os modelos, mas que criasse uma nova forma. O discurso era convincente! Após alguns anos de pregação insistente, vários alunos e ex-alunos começaram a seguir o mestre, cada um a seu modo. Alguns deixaram de comer, querendo tornar-se flores - sonhando realizar fotossíntese! Outros, iniciaram a filosofia do dia-a-dia. A cada manhã acordavam de uma maneira: hoje macaco, amanhã uva, depois um livro... Um fenômeno interessante!

 
É desnecessário dizer que Ignácio fedia, fedia merda! Um ano passado, e o círculo da filosofia do dia-a-dia, também conhecida como filosofia da merda, crescia consideravelmente. Os pais já não sabiam como lidar com a nova situação, os professores conservadores pediram demissão, consequentemente, a faculdade passou a ser referência nos ensinamentos ignacianos. Ele chegou a ser convidado para ir ao Programa do Jô, mas a entrevista não foi realizada porque o cheiro já era impossível de ser tolerado em ambientes fechados. Não sei bem... Mas Ignácio e sua trupe só tinham livre andar pelos parques de Goiânia e pela faculdade, onde habitavam. Talvez porque as pessoas depois de caminhar ou correr pelas pistas, desenvolvem um odor diferencial, muito parecido com a merda. E quanto à faculdade, todos já exalavam o mesmo cheiro, inenarrável.

 
Dias passando e Ignácio continuava paulatinamente suas descobertas. As pequisas literárias passaram, todas, a trazer algo sobre os cheiros, em especial aqueles não tolerados pelos mortais. Parafraseava Kundera dizendo que "A luta do homem contra o poder é a luta do cheiro da merda contra o esquecimento". Contava que uma sociedade morta é aquela que esconde a verdadeira essência, a merda! A faculdade da filosofia do dia-a-dia ou faculdade de merda, acabou aglutinando as demais faculdades. Os positivistas já estavam fracassados! Agora, não havia História, Ciências Sociais, Medicina ou Engenharias, era tudo Universidade do dia-a-dia, que, claro, estudava os filosofemas ignacianos. O futuro universitário estava bastante delineado: aprofundar nas discussões, para que a merda pudesse aparecer...

 
As Teorias Ignacianas ganharam respeito internacionalmente. Professores de universidades renomadas vinham ter aulas com o célebre Ignácio ou com alunos prodígios do professor. As aulas eram peculiares, a começar pela arquitetura da sala. Tinha o formato, a cor e o cheiro da merda. Não eram todos que conseguiam assistir três horas de seminários, alguns até vomitavam. Sobre o vômito, eles tinham que realizá-lo ali mesmo, entre os alunos, já que o odor do lugar trazia uma conotação pedagógica. Com o correr do tempo, a sociedade civil começou a se encantar com as novas teorias da universidade. O movimento em torno da merda cresceu tanto que o nome da universidade foi alterado. Agora sim, Universidade de MERDA! Assim mesmo, em caixa alta, pois simbolizava todos os anos de estudo daquele grupo. A sociedade já era outra! Até mesmo o presidente da república fora substituído por uma porção de merda. Quem decidia pelo país não era o presidente, mas a renomada Universidade de MERDA. Perguntado sobre as mudanças de paradigmas, Ignácio disse: "Tudo que é merda desmancha ao ar!". Não digo que morreram os movimentos de resistência, mas, um pronunciamento vindo da Universidade de MERDA, pôs fim a qualquer tentativa de retroceder, de esconder a merda. "O que acontece no Brasil já era uma reivindicação histórica há anos!" - como eram sábias as palavras daquele grupo, consideravam os mortais.

 
Os tempos mudam... E agora temos Ignácio no parque Areião, o velho Parque Areião, agora de MERDA. Sim, e na parte da manhã! Todos ali já sabem das conquistas ignacianas de MERDA, das mudanças socias de MERDA, da socialização da MERDA, das novas religiões de MERDA. A palavra merda já não podia ser escrita em letras minúsculas - desrespeito à cultura local. Agora, sempre com letras maiúsculas, MERDA! Uma revolução acontecera! Mas Ignácio acordara aquele dia de saco cheio... Não queria ser notado, estava com saudades do tempo em que caminhava sem porquê. Cansara de ser idolatrado, ser um guru de uma nação...

 
Acordou, e foi ao banheiro. Ligou o chuveiro, de onde já não caía muita água devido ao longo tempo de desuso. Tomou um demorado banho e, após uma longa reflexão, Ignácio pôs-se a fazer a barba. Em seguida, abriu o guarda-roupas e encontrou uma roupa limpa, embora um tanto empoeirada. Vestiu-se, e foi ao Parque Areião de MERDA, queria caminhar! Chegando lá, sem que ninguém o conhecesse, sentou-se ao meio-fio e começou a ouvir o mundo... O novo mundo de MERDA! Entendeu que tudo ali não passava de MERDA! Depois de alguns minutos, levantou-se e iniciou a caminhada...

terça-feira, 7 de junho de 2011

REMORRER


No quadro da criança negra me vi. Não pude deixar o encanto e relutei contra a superfície dos olhos. Se me perguntassem aonde iria, juro, não saberia resposta. Sei que hoje Bach vibrou na foto passada e meus olhos relincharam bastante. Sua lembrança já é um sermão de pai adorado, não que esse pai tenha sempre sido amor, foi, antes, fruta amarga. Eu a amargei sem por quê. A casca parecia mexerica, agora, vejo caqui dentro. Hoje sentei-me frente ao quadro e vi só vermelho-caqui! Talvez porque os ouros negros estejam realçados na imensidão dum quarto que presenciou a morte entre gemidos. Estou quase com a coragem dum suicida, pois escrevo parte da minha morte, escrevo minha distância dos demais. Confunde se pensa que quero divã, se o quisesse, estaria nos braços de alguma mulher.


Um dia o álcool, amigo macabro, me fez amar a amiga e mulher alheia. Não era muito alheia porque o macho vivia logo ao lado e eu bem o sabia. Confesso que o gato preto do dia foi o álcool, mas não foi só! Vi plantiplanto ali... e a nona sinfonia, mais estrondosa que em laranja mecânica, esbravejou meus instintos. Selvagem me vi de portas abertas. Esse quadro devia ter sido pintado de azul celeste para desmoralizar Deus, entretanto foi negra a cor da noite... O buraco na parede era toda a porta aberta à família ou quem quisesse enxergar. Paro aqui para poder nos olhos de ouro me ver. O silêncio é impetuoso! Quando o vejo, não sinto os óculos redondos da infância, não vejo Potter há tempo! Passeando, vejo a gorda que segurava seu braço, era a mesma que segurava o irmão noutra foto. Sei que a pena dum delinquente como eu deveria ser a morte, vagar eternamente. Sei que o destino meu é o de leiteiro atingindo por tiro durante a madrugada, mas eu, como leiteiro, devia sofrer mais antes da morte. Sim, podia estar entre o vermelho do pôr do sol e o branco leite. Seria justo e minha alma não voltaria agora nessa foto para dizer devaneios de alguém que permanece vivo. A área onde fica os carros, antes apenas um, chora sangue hoje... Não há forma alguma de esquecer o que ontem jorrou mais que sangue de judeu à cruz. Foram suas as veias abertas, abri apenas algumas arterias, menos importantes em mim. Mas essa foto me lembra que os olhos de jabuticabas abriram a veia femural. Eu mesmo preferi me emparedar!
Desenvolvo diálogos para dizer amor, mesmo a quem não ama. Escrevo e crio amores de plantão! Mas hoje só consegui dar passos e sentir calafrios! Suas costas, são costas de criança e são gordas como a mão gorda de quem o segura. O capim não é verde exatamente como imaginei: é frio, gélido, e é por isso que não movo minhas pernas, nem mesmo meus olhos mexem, nem um sussurro. Por que não se vira e diz 'olá'? Por que não dizer 'desgraçado' e me matar? Sei, pensa que morri, vou decepcioná-lo! Embora cego, ainda caminho... Estou nessa foto somente por causa da nossa morte. Não nego, morte! Seria hipocrisia demais mentir agora! Morri tantas vezes que não me lembro o sabor do leite ou do pôr do sol, entretanto lembro-me da cor avermelhada, minha cor crepúsculo. Morrer é existir novamente! Suas pernas são gordas, tudo é gordo, menos o capim que ainda é frio e cinza. Essa babá me olha de soslaio e eu sinto um olhar de nuca. Nunca conseguirei quebrar o silêncio! Se você, irmão, fosse dizer algo, apenas diria filosofias amigas ou filosofemas de morte, tudo se resume em vida, ou morte! Ouviria nietzdamente seus pensamentos e eu, como sempre, não teria o que falar. Talvez eu só o chamasse para jogar bola na área. Há formigas aqui e são várias. Seu olhor doce é de jabuticabas ainda... Agora entendo de onde traz isso... As formigas não montarão seu esqueleto porque você permanece vivo, formiga só monta ossos mortos. Eu juro que, se eu o matasse, as formigas sairiam imediatamente da pensão e montariam seu esqueleto, pois sua altura aqui é pequenina como um anão. Atrevo um pouco e digo algo sobre o formigueiro que não aparece na imagem. Você não liga, mas continua com o mesmo tom entorpecido (talvez porque o que disse não tenha sido palavras!). Queria perguntar o que faz aí parado tanto tempo. Aqui dentro sou todo Alice interiormente, como se quisesse sair da toca, mesmo não estando nela. Talvez, realmente não tenha coragem de dizer algo agora. Ou não esteja na hora de me ver fumaça! Não vou pousar à foto. Eu me escondo aqui, agachado, para não aparecer nesse quarto. Morri sim, porque estou dentro de um mundo que não é de platiplanto. Morri, mas sou novamente, e novamente vou morrer para nascer novamente. Ininterruptamente, continuo escondido dentro da imagem e não sei se conseguirei transformá-la em cinema... Não se incomode com minha presença! Não se incomode, querido irmão!

lição de um jovem nazista

É a história de alguém que se apresenta feliz, saltitante em quase todos os momentos: "sorridente por ingenuidade", como gostavam de dizer. Ele não precisa de nome, uma vez que a intenção é resumir a vida de quase todos os humanos. Alguns diziam que sofria de obesidade mórbida, já que tinha prazer em engolir as casas ao redor. A casa, refém de nosso personagem, logo se via sem quadros, sem livros, filmes ou bugigangas. Enquanto apenas os bens culturais eram consumidos, todos o julgavam interessante: "apesar de tudo é um garoto sensível!", admiravam. Porém, a ambição crescia dia a dia... e os móveis e eletrodomésticos também desapareciam inexplicavelmente. Depois de alguns dias de ação, o que se via era uma casa vazia e um jovem grande em alegria, que engordava consideravelmente. O interessante é que sempre parasitava uma casa por vez, jamais duas, três, quatro... (não aprendera com Hitler ainda!). Depois de esvaziar tudo que havia, o moço já bastante grande não se contentava com a parte de dentro e partia ao consumo do exterior: paredes, pintura, até que tudo voltava ao estágio inicial, um lote baldio.

Porém, nosso personagem, após degustar uma casa (principalmente aquelas grandes), inchado, muito inchado, entrava em sono profundo (já tinha tido lições com os ursos). Durante o tempo em que ficava hibernado, o ronco tremendo funcionava como um tampão e tudo que comera até ali era colocado para fora, num vômito ininterrupto. Assim, ele, gigante, esvaziava-se e voltava a um graveto de homem...

Novamente, agora ressignificado, nosso personagem-graveto está vazio. Talvez por isso alguns o classificam como bipolar, outros simplesmente como geminiano. Não se trata de dizer o que ele é: dispenso os julgamentos e inúmeras tentativas de enquadrar esse que agora já se apresenta, se não como amigo, pelo menos como nosso colega. Quando está vazio, dificilmente sente fome. Ele não se interessa por nenhum prato, nem o mais requintado e, ainda, esquece-se que se alimenta de casas, preferencialmente as grandes. Entretanto, o ciclo continua quando algum livro ou filme ou qualquer coisa que o valha, o deixa admirado. Dessa vez foi um livro, "a insustentável leveza do ser", que estava em uma estante velha, morto, sem ninguém para lê-lo... provavelmente houve uma reconhecimento entre os dois: nosso personagem deve ter sentido pena do livro - permanecia sempre fechado -, assim como o livro provavelmente teria sentido lástima pelo nosso colega (já amigo?). Nesse ínterim, o livro foi sugado de uma só vez, porém não sustentou a leveza do amigo (será colega?). Percebendo que não tinha saciado, iniciou a namorar o acervo de músicas, filmes e livros que havia naquela casa. Comeu toda "Vanessa da Matta" e iniciou um Requiem para o sonho. Obcecado, devorou os demais filmes e todas as músicas dali. Começava a crescer consideravelmente, todos percebiam a diferente forma, já não havia mais livros, nem músicas, nem filmes na casa... Ele crescia enquanto tudo desaparecia, inevitavelmente o ciclo tomava forma.

Nessa casa, moravam o pai, a filha e o espírito dito santo. Ah, havia também um discípulo da filha que morava no barracão ao lado da casa. Nosso amigo havia devorado todos os bens culturais, os móveis e eletrodomésticos, entretanto a fome continuava dilacerando o estômago. Num dia, os dois computadores desapareceram. No outro, o fogão e a geladeira. Menos de um mês e toda casa já havia sido tragada, incluindo o barracão. Tudo já se resumia a um terreno baldio e a fome não cessava, até que uma ideia inovadora se materializou ao nosso amigo-companheiro: comer gente deve preencher mais os espaços da fome. Isso porque pensava que as pessoas podiam comer outrem. Enfim, comer um ser humano era engolir várias casas... a fome podia acabar assim... (ideia interessante, não?)

Só sabe quem coloca as hipóteses à prova. Apesar de sentir bastante medo do espírito que pariava o então lote vazio, armou uma emboscada para capturá-lo. Espíritos subestimam os mortais e facilmente nosso companheiro o consumiu - agora era imortal, mesmo sem ter ciência disso. A filha linda foi a segunda a ser consumida: travestiu-se de Zeus (como espírito, já podia ser aquilo que se pensa ou mesmo que não é pensado) e comeu a garota. O terreno ficara limpo, apenas o pai estava ali. Engraçado, os livros sumiam e todos fingiam não enxergar; os computadores desapareciam e ninguém sentia falta... as paredes caíam, mas todos logo se acostumavam (o sol entraria mais facil!). O espírito também se foi, mas como não é gente para que se importar? A filha despareceu, porém é jovem "jovens vão aonde quiserem e logo volta", afirmava o desatento pai (volta?). Você já deve saber o que aconteceu com esse pai, percebeu? Crescemos mais e daqui a pouco dormiremos...

OFÍCIO-NENHUM-NÃO-É-PRA-QUALQUER-UM

Dou nó no Diabo, mas não engano uma criança. Crianças nasceram para enganar - são todas melhores que eu! Já o resto... Os mortais têm cor escura e fedem! Opa!... Não vou pelos filosofemas ignacianos, tenho meus próprios métodos.

Tenho ofício-nenhum. Isso mesmo, nenhum! Muitos desempregados dizem estar fodidos, sem emprego, sem amigos... Dá tudo na mesma! Eu não, tenho meu ofício, que é nenhum. Explico: acordo todos os dias o horário mais conveniente, geralmente depois das dez. Em seguida, faço o que deve ser! Como, bebo, cago e transo comigo mesmo. Tudo que os mortais fazem e não dizem. Sobre meu ganha-pão, prefiro chamar de ofício aquilo que chamam profissão. Tenho nenhum e, mesmo assim, como caviar e bebo champanha. Aquilo que os mortais sonham, tenho como enfeite. É resto!

Não conseguiria ensinar meu ofício para outrem, já até tentei! Para exercê-lo, não basta conhecer de pintura, carro, escola, ou coisa que o valha... É por isso que adoro assistir videocassetadas, sempre dizem para não tentarmos fazer aquelas coisas. Muito parecido com o ofício-nenhum!... Não há lugar certo para aprender o que faço: os parques, em casa, em todo espaço aprende-se naturalmente. Às vezes caminho pelos parques, outras fico em casa conversando com o cão vizinho. Moro numa casa geminada, por opção, e todos os dias ouço os ganidos do cachorro ao lado. Não sei se ficaria bem num lugar longe das vozes dos cães e dos humanos, os mortais me seduzem. Às vezes, sento-me perto da parede e dou-me a ouvir o silêncio embaraçado com os latidos do animal – faz parte do meu ofício.

Outro dia, recebi uma ligação do sujeito-que-não-me-lembro-o-nome. Ele dizia que queria aprender a minha arte. Engraçado, ele chamou isso de arte!... É mesmo incrível, os mortais têm uma necessidade imensa de dar nome às coisas. Antigamente, até eu mesmo resolvi ler livros que prometiam vida melhor. Um coisa legal foi perceber que essa literatura sempre traz um animal como metáfora: ora aprendemos a ser cães e odiar gatos, ora somos gatos que fogem de cães - li e gostei principalmente da história do escritor. O que era narrado estava no órbita do desprezível, entretanto, conviver com o livro por uns meses, na cabeceira da cama, era ter comigo quem se atreveu a passar para o papel aquilo. Eles eram mesmo interessantes! Corajosos, além de tudo! Acordei várias noites para segurar o livro... Meus pensamentos transbordavam e, noutro dia, sempre ganhava dinheiro fácil. Simples assim!

Ganhar dinheiro para quem tem ofício-nenhum nunca foi difícil. É, antes, uma consequência de estar vivo. Quem-de-si-de-ter-ofício-nenhum, está emaranhado de várias vozes estranhas (não, esse "de si de" não é meu... tirei mesmo do Guimarães!). Talvez por isso seja tão fácil dar nó no Diabo. O Demo sempre se achou seguro demais... Não tenho vocação religiosa, mas aprendi muito com as trapaças divinas.

Numa sexta, fui à feira. Comprei um gostoso pastel e danei a comer. Como sou um eterno e fiel praticante do ofício-nenhum, passei a contemplar os mortais. Eles transitavam com o cheiro próprio dos normais... Eu, que nunca estou de saco cheio para os mortais, ao contrário, dou-lhes crédito para perceber o coração, ouvi um casal que engolia pastéis. Estavam dilacerados, prestes a desmanchar o sagrado matrimônio, simplesmente porque não conseguiam pagar as próprias dívidas. O consórcio já lhes tinha tomado o veículo e a casa estava a um passo... Perguntei à mulher se já tinha lido os best-sellers - a mim, faltava-lhe uma dose cavalar de leitura comercial. A moça, como que deixando o caminho aberto, contou que o marido era viciado nessa literatura, conhecia a história do rato que roeu, roeu o quê? Ela caia na risada enquanto falava dos bichanos. Parecia um pouco decepcionada com o esposo...

Dei meu jeito cristão! Tive um acesso de caridade e resolvi levá-los ao meu apartamento. Claro, levei a um que deixara exclusivo para aventuras - toda vez que queria ouvir alguém, eu o levava àquele lugar. A mulher-falante da feira não conseguiu esconder o espanto ao entrar no meu espaço: disse sobre a decoração e patavinas mais... O marido apenas observava. Minha promessa era ensiná-los a ganhar dinheiro - esse era o sonho do casal! Na verdade, eu queria fazer uma caridade, porém sempre achei estranho dar dinheiro, chinelo, comida para outrem. Penso como meu falecido pai: “Deviam ensinar a pescar, não dar o peixe frito!”. Depois de uma longa conversa, quer dizer, monólogo, já que apenas a mulher falava, disse que não tinha como ensinar tudo naquele dia, e marquei outro encontro.

Os dias passaram e quase todas as semanas recebia o casal. Depois de alguns meses, percebendo o fracasso deles, passei a marcar sessões individuais, o que também não foi muito proveitoso. Um ano e meio de muita conversa... Confesso, queria fazer como um artesão: lapidar aquelas pessoas para fazê-las ganhar dinheiro. Todavia, o casal continuava brigando e sem um puto no bolso.

Mudei de estragégia. Numa segunda-feira, disse que começaríamos a fase prática. Essa etapa consistiria em tentar aplicar, à maneira própria, o que havia sido aprendido depois de longos dois anos. Começamos bem: elimei as sessões individuais, passei a observar e opinar em cada ação realizada pelos dois – eu estava otimista! Talvez estivesse pensando tão positivo, porque aquela era a primeira vez que tomava a docência como profissão... E não queria me frustrar!

Após duas semanas supervisionando o estágio, recebi a lastimável notícia... Meus dois alunos estavam presos! Afinal, ofício-nenhum-não-é-pra-qualquer-um!

CIANURETO

Há muito tempo não vou à casa de vovó, mas essa me parece uma boa oportunidade. Afinal, não é todo dia que ela faz aniversário, ainda mais, de noventa anos. O legal é que vovô aniversaria no mesmo dia - um dia, duas festas. Quando pequena, dizia a todos da minha vontade de ser como vó-ana, isso porque ela sempre foi dona de si, sabia cada passo que dava. Certo dia, numa confraternização de família, meu avô revelou que tinha uma amante - estava completamente bêbado. Vó-ana simplesmente curvou a cabeça dizendo que já sabia, que ela mesma havia unido os dois. É claro que ele fingiu não acreditar, mas todos ali conheciam a história. Acho vovó incrível de verdade! Mamãe, não... Ela sempre quer mostrar que não está bem, que precisa de ajuda. No fundo, morre de inveja de vó-ana. Vovó, calada como é, não entra nessa competição ridícula. Os mortais morrem querendo provar o que não são... Vovó é, e pronto, e acabou!

Hoje é dia de ir à casa de vovó! Já faz pelo menos três anos que não apareço por lá. Não por odiar aquele espaço, mas por ter que aguentar as paranoias de mamãe. Ela se apronta toda e quer que eu faça o mesmo. Odeio me pentear! Meus cabelos têm forma própria, não precisam de "forçação" de barra. Mamãe morre gritando que estou feia, enquanto papai tenta acalmá-la. Acho que ela adora ver o pai chorando: "calminha, Divina, calminha...". A tranquilidade do meu pai é um estorvo! Não suporto ver essas cenas, por isso refugio-me no meu recôndito quarto. Porém, hoje suportarei as insanidades de mamãe. Quem sabe não esqueço aquele patife? Ontem, o degenerado do meu ex-namorado, terminou sem razão e, ainda, por e-mail. Tem base?!

Entramos no carro e nos mandamos, não sem os berros de mamãe. A viagem de Anápolis a Goiânia foi repleta de queixas, sofrimentos, mas papai, tolerante até demais, tranquilazava minha mãe por alguns segundos, logo voltava a mesma ladainha. Saí de casa consciente dessa lamúria, era minha sina, já que não queria pensar naquele depravado. Ele sempre vinha à minha mente, de repente. Eu olho para o lado e passo a obsevar papai e mamãe. Na minha bolsa há bastantes doces e, é só lembrar do desgraçado, para me entupir de porcarias. Qualquer merda do mundo é melhor que aquele destrambilhado! Como que para silenciar mamãe, ou simplesmente para obter uma explicação sobre meus sentimentos, interrompo a conversa e pergunto qual a razão de eu não conseguir tirar o salafrário da minha mente. Papai limitou-se a dizer que é consequência dos quinze. Mamãe, não querendo se passar por alguém ausente, disse já ter vivido situação parecida, "isso passa!", e voltou às lamentações divinas.

Chegamos ao destino e, enfim, mamãe se calou um pouco. Entramos no apartamento, cumprimentei vovó e me sentei. Ali é assim mesmo, todos chegam se abraçam à porta e se sentam. Fazem comentários sem sentidos, comem, se cutucam disfarçadamente através das palavras "seu filho continua magrinho, magrinho...". Depois todos vão embora à francesa. Vovó fica sempre calada observando a ordem da casa, como um cão farejador. Aliás, farejar a dor é uma virtude de vó-ana, que sabe quem sofre mais, conhece bem as fraquezas de todos. Mas hoje chegamos mais cedo, não havia ninguém para abraçarmos à porta. Apenas vovó sentada contemplando o dia pela janela e minha tia Joana, a solteirona que cuidava de vovó e vovô. Minha família cumprimentou a todos, enquanto eu abraçava e beijava apenas vó-ana. Ela gostava de mim! Olhamo-nos profundamente, como quem diz um romance sem palavras. Sentada, pude observar todos os parentes, os mais diversos, chegando um a um. Alguns espalhafatosos, outros nem tanto.

Os convidados ficam sorrindo para dar o ar de festa, enquanto eu sempre os observo. São interessantes os mortais, mas ele, o sem vergonha, não sai da minha cabeça. Como um homem pode me deixar assim? É me perguntar essas coisas e pensar em vovó... Fosse como fosse, vó-ana faria tudo diferente. Olha só! Enquanto as pessoas não param de dizer que a vida é bela, que vó-ana está cada vez mais exuberante - ela simplesmente contempla a paisagem pela janela. Deve ser um saco aguentar toda essa gente! Tio João não vê a hora de ela bater as botas, quer dividir logo a herança. Esses dias, ligou lá em casa insinuando que devíamos provar que vó-ana seria incapaz. Sem vergonha igual ao desfigurado do meu ex! Vovó não, ela olha, contempla a todos com o mesmo tom, desde sempre. Nem me lembro do vovô, talvez por ele ficar ali deitado, inoperante. Será que entende alguma coisa?

Nos tempos em que vovô falava era tudo diferente. As festas eram festas! Comíamos, bebíamos... O povo ficava trêbado e acabava falando de amor. Não posso me esquecer dele, foi especial. Mas vovó vive e vive bem! Uma flor no meio desse deserto implacável. Olha lá, tio João falando que vó-ana é um exemplo de vida, "sempre amou a vida e ama!". Ah, meu deus! Mamãe até aqui... Reclamando agora de dor nas costas, sinusite ou sei lá o quê. Deve ser difícil: perceber que papai tem que dar atenção a tantas pessoas. Onde é que anda Lampião? Maria Bonita ficou desamparada! Ele não me sai da cabeça e não servem logo o almoço, que coisa! Ufa, lá vem tia-solteirona-joana. Tá tudo lá... Frango caipira, feijão tropeiro, milho, salada e, de quebra, muito sorvete...


Vou à forra! Como de tudo e ainda me lambuso no sorvete feito pela solteirona. Nossa, como tanto que parece ser vertigem esses pensamentos. Bucho cheio! Vovó-perto-de-titia-perto-de-mamãe-perto-de-papai... Nossa, vovó está caindo!... Ai, meu Deus! Vo-ana engoliu um comprimido de cianureto...

UMA MÁQUINA NADA EXTRAVIADA

A máquina continuava causando arrepios nos habitantes do vilarejo. As crianças não perdiam tempo: pululavam máquina acima. Brincadeiras de todo tipo foram desenvolvidas a partir da chegada da estranha coisa. Era grande, tão grande, que ninguém nem sonhado tinha com aquilo. Os pedregulhos, as brincadeiras, as visitas já eram controladas pela prefeitura, para não virar um verdadeiro caos.

Certo dia, ainda me manhã, um visitante nada convencional chegou ao município. Ele estava de mãos vazias: mochilas, malas não estavam com ele. Tinha o andar resoluto, parecia saber onde pisava. O lugar não tinha rodoviária, mas havia um lugar que fora convencionado para esse fim, o Pouso Alto. Era mesmo lá nas beiradas da rodovia, donde era possível enxergar todas casas. Apeou ali, sem mais nem menos, foi descendo a ladeira enorme de Buenópolis. Passou pelo único banco do lugar, que era do Brasil, e continuou com passos firmes a descida. Os habitantes não cessavam de observá-lo, cogitavam hipóteses diversas sobre a origem do rapaz. Havia uma escola, que naquele dia liberara os estudantes mais cedo. Eles estavam ainda pelo portão, conversando no sossego único de interiorzinho. Robson, continuava percorrendo a ladeira imponete, sequer olhava para os lados... Até que avistou com clareza o objetivo da caminhada.

Aproximou-se da máquina, havia dois policiais fazendo a vigilância do lugar. Parou frente aos oficiais e disse sobre seu intento - queria adentrar à máquina. Resposta pronta: impossível! Isso porque o prefeito queria conservar o espaço intacto à visitação de turistas, agora tinha dia e hora certa para adentrar o espaço. Robson, sem entender, não respeitando os limites impostos, segurou uma tecla do grande objeto, e entrou. Vinte minutos depois, estavam Robson e os dois guardas na delegacia. O delegado, que não queria se meter nas coisas da prefeitura, chamou o prefeito, mas, enquanto não chegava, jogou-se numa conversa com o desconhecido. Havia um mal entendido ali - era como Robson dizia. Foi explicado que o município já era outro após a chegada da grande máquina, que vinham pessoas de toda parte alegando ser milagroso o objeto. O prefeito, Seu Manoel, explorava bem essa ideia de milagre. Estipulara que a máquina só conseguia curar nas sextas, sábados e domingos, dia de semana ficava fechada.

Após alguma escuta, Robson achou interessante como representavam a máquina. Como um atento ouvidor dos mortais, continuava com a mesma postura rígida e de ouvidos abertos às histórias. Chegara a notícia: o prefeito estava noutra cidade em busca de patrocínio para o bendito objeto. O delegado, que por sinal adorava conversar, gostou de ter ouvidos ali numa segunda-feira-de-todo-dia. Danou a contar o que passava pelas cabeças dos mortais de Buenópolis. O padre do lugar, Juarez, estava em pé de guerra com a prefeitura. Isso porque achava ser aquele, um objeto não identificado, coisa maligna, coisa de alienígena, coisa do trem-ruim. No início não era bem assim: a prefeitura dividia a renda das visitas com a paróquia, entretanto, o prefeito instalou uma praça de alimentação dentro da máquina e se negou a dividir os ganhos. Foi declarada a guerra! A cidade estava dividida: aqueles que gostavam de dinheiro-sem-sossego e, do outro lado, os que dormiam sono-de-padre. Era coisa séria! Inclusive, os dois guardas tinham vindo de Belo Horizonte, uma forma da polícia manter a isenção. Mas todos sabiam que o delegado era católico e gostava de dinheiro, uma figura meio extraviada!...

Robson, estava sentado de orelhas em pé para a dor dos mortais. O delegado não sofria, ao contrário, dava longas gargalhadas quando falava da contenda formada no vilarejo. Depois de muita história, ouviu-se burburinhos na porta da delegacia. Eram os católicos querendo permanecer dormindo. Diziam ser o própria coisa-ruim, o desconhecido. O tinhoso tinha tomado forma de gente! Era coisa por demais que se ouvia. Uns, mais sonâmbulos que os outros, deram a jogar cruzes, benzidas pelo padre, na delegacia. Não era possível enxergar o padre, talvez porque quisesse omitir sua responsabilidade pelo atentado. O fato é que a coisa foi ficando grave. Na delegacia só tinham três policiais e o delegado - os guardas da capital já tinham retomado a vigilância da máquina. Uma cruz, mais benta que as demais, quebrou o vidro e caiu aos pés de Robson. Nela havia a inscrição "Sai, Tiubirom!"... Riram os dois, o delegado fez o favor de explicar que Tiubiron fora tirado de um música de carnaval, o que era considerado pelas beatas como coisa do chupa cabra.

Muito se ouvia ali. Agora a conversa tinha mudado o rumo, eram os manifestantes que discutiam. Olharam pela vidraça quebrada, e perceberam que os capitalistas da cidade tinham chegado - era calorosa a discussão! Depois de uma conversa quente, ouviu-se um tiro... Parece não ter matado ninguém, mas causou um grande alvoroço. O delegado, agora sim, sentiu-se convocado e foi ter com as duas dissidências. Usou de um megafone para atrair a atenção dos transeuntes. Disse para acalmar os ânimos que o prefeito já estava a caminho... E que, qualquer outro incidente entre eles, haveria de começar as prisões. O povo, cada um à sua maneira, danou a gritar: "Delegado tinhoso", ou, ainda, "É católico! Mas o Vaticano está rico que dói!"... Os lados uniram-se para destrambelhar o pobre-diabo. Conversa vai-e-vem e Robson tomava nota de tudo ali.

Após intermináveis discussões, Padre Juarez e Seu Manoel chegaram à delegacia. O padre entrou benzendo o lugar, enquanto o prefeito contava um maço de notas, pareciam falsas de tão velhas. Robson ouviu aos dois: bons argumentos acima de tudo! Depois da longa explanação, principalmente a do padre, o prefeito era mais sucinto, perguntaram sobre a procedência de Robson. Sem muito blá-blá-blá, disse apenas que coletaria as críticas, sugestões e reclamações do vilarejo - era o novo ouvidor do lugar!

Terra vazia

Os jornais estão sangrando... as pessoas, desconcertadas, vagam incansavelmente por lugares incertos. E eu, olhar meu, olhar incestuoso frustrado, não consegue distinguir as cenas que passam com tanta rapidez, são retinas deslocadas.

Sentado, sou introspecção... apenas os jornais me ligam ao mundo exterior. Parece mesmo que preciso de sangue alheio para sentir o coração batendo. As mortes no Rio de Janeiro não me fazem chorar, muito menos me causam arrepios, mas me dão a terrível sensação de existência. É, minha subjetividade aprendeu a ler desgraças, o que antes era apenas exótico já tornou-se essencial. Mas o jornal me liga a mim. Essa corrida veloz faz qualquer piloto tentar olhar à arquibancada.

Abri o jornal e trouxe a xícara de café para mais perto. Meus olhos pulam nas Coréias e sinto-me em São Paulo de guerra. As torturas policias "Ministério Público investiga possíveis casos..." são mais indícios da minha existência. Encontro-me perdido, mas o sofrimento alheio me conforta! Percebo que procuro me matar todos os dias com as notícias. Matar e ressucitar-me numa xícara de chá ou café. Percebo que minha vida está diretamente ligada às mortes, à minha morte principalmente. Se desaparecessem os jornais!... hipótese suicida, não sou imortal ainda. Meus olhos continuam procurando sangue (as notícias de ontem estão pobres!...). Desencontro-me e continuo perdido!

O café é o esquecimento da minh'alma! Enquanto morro nas notícias sangrentas (talvez só aí eu exista de fato), desloco-me à terra solitária de mim num gole de bebida. Vou-me e, às vezes, voo de mim. Talvez a verdadeira morte esteja no esquecimento (ou seria o contrário?). Talvez só esteja verdadeiramente vivo quando pressinto a morte... (e morro ao esquecer de mim?)

-Devaneios são sempre confusos e os lapsos são comuns...

Continuo sentado solitariamente. Mesmo diante da inscrição "Sala dos professores", continuo repensando sobre meus jornais. Meu pensamento é um mosaico de sangue! A vida só existe quando há notícias trágicas o suficiente para fazer o sangue circular. O que é morte se faz vida em mim. Sou um jornal de mortes e vidas... ontem era um menino que sonhava ser mestre em capoeira, mas fui interrompido por uma bala policial e morri nos braços do pai. Sou o Rio e a Coréia, de janeiro a janeiro, de norte a sul.

Afasto a xícara de café com violência o que a faz cair e manchar o chão. Alguém entra na sala e soa o sinal anunciando mais uma aula. A vida é queda, mas logo vem alguém apertar o sinal... queria ter agora minha xícara de café para soar meu sinal de esquecimento. Preciso do artifício da morte (jornais de sangue) para ter existência, assim como preciso me matar para que seja ressuscitado posteriormente. Um gole de café me faria esquecer... olhar nos jornais teria o milagre da ressurreição. Sei, talvez Jesus tenha visto um banquete de notícias sangrentas e bebido muito café... (o mistério da ressurreição foi resolvido!)... talvez todo revolucionário tenha o sofrimento como motor de existência; tenha também uma xícara de café para esquecer-se.

A xícara caiu... há bastante sangue à mesa, mas o café foi derramado. Em meu coração agora não há reconciliação imediata... vejo os jornais - mais sangue -, farto-me de notícias e o coração dispara. A mente parece vazada... o estômago range facas amoladas e meu café está derramado. Caio ao chão e, como cachorro feroz, passo a língua na superfície banhada do líquido preto. Continuo sugando, mas pouco líquido me vem à boca... o coração sangra nessa corrida... já é linha de chegada... e voo... vou sem café ao lado!