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quarta-feira, 8 de junho de 2011

Em nome da MERDA, amém!

Minha mão está suja./ Preciso cortá-la./ Não adianta lavar./ A água está podre./ Nem ensaboar./ O sabão é ruim./ A mão está suja,/ Suja há muitos anos./ Carlos Drummond de Andrande, A mão suja


Ignácio caminhava toda tarde pelo Parque Areião, mas naquele dia resolvera ir pela manhã. Era comum, durante a caminhada, encontrar colegas da faculdade, alunos e antigos professores. Geralmente, esperava um tempo antes de iniciar as quatro voltas, uma vez que adorava observar os garotões malhando e comentando sobre mulheres. Já tinha concluído que os tempos eram outros! No início, aquele lugar, que frequentava por indicação médica, era exclusivo aos homens. Entretanto, nos últimos anos, Ignácio percebera que as mulheres estavam tomando conta do pedaço, com uma diferença básica: comentavam sobre homens e mulheres, sem distinção de gênero.

 
Ignácio, como todo mortal do século XXI, não só fazia caminhadas, como tinha uma vida social um tanto complexa. Na faculdade, ministrava aulas de literatura contemporânea. O que chamava a atenção era que, em quase toda explanação do professor, deixava escapar uma concepção de vida um tanto estranha. Espalharam inclusive um boato malicioso sobre Ignácio... Diziam que, numa análise sobre a poética Drummoniana, Ignácio teria dito: "Resumir Drummond é fácil, basta você aplicar a teoria da merda: da merda viemos, à merda voltaremos!". Digo ser boato porque a aula não foi gravada, apenas por isso! Outros incidentes também foram mencionados pelos ex-alunos do professor. Contam que Ignácio estava num bar, e, depois de alguma bebida, desabrochou a falar. Disse que os humanos são merdas ambulantes! Que não só os seres humanos são merdas, mas toda essência viva carrega a tonalidade de fezes. Ainda citou Ferreira Gullar dizendo em alto tom: "Introduzo na poesia/ a palavra diarréia./ Não pela palavra fria/ Mas pelo que ela semeia". Diante do espanto geral, Ignácio ainda completou: "Da merda viemos, à merda voltaremos!".

 
Com o passar do tempo, Ignácio começou a levar muito a sério os seus filosofemas. Os banhos já não eram regulares, os dentes, raramente escovados, e os cabelos deixaram de ser penteados... Como Ignácio não era casado, muito menos possuía filhos, as pessoas demoraram a perceber o que estava a acontecer com ele. O fato é que as aulas estavam cada vez mais repletas de filosofemas ignacianos - como passaram a ser chamados. Dizia que os estudantes, no lugar de ler Rubem Fonseca, deviam se atirar ao submundo brasileiro. Deviam, ao invés de ler literatura marginal, procurar fazer uma prática marginal, que não reproduzisse os modelos, mas que criasse uma nova forma. O discurso era convincente! Após alguns anos de pregação insistente, vários alunos e ex-alunos começaram a seguir o mestre, cada um a seu modo. Alguns deixaram de comer, querendo tornar-se flores - sonhando realizar fotossíntese! Outros, iniciaram a filosofia do dia-a-dia. A cada manhã acordavam de uma maneira: hoje macaco, amanhã uva, depois um livro... Um fenômeno interessante!

 
É desnecessário dizer que Ignácio fedia, fedia merda! Um ano passado, e o círculo da filosofia do dia-a-dia, também conhecida como filosofia da merda, crescia consideravelmente. Os pais já não sabiam como lidar com a nova situação, os professores conservadores pediram demissão, consequentemente, a faculdade passou a ser referência nos ensinamentos ignacianos. Ele chegou a ser convidado para ir ao Programa do Jô, mas a entrevista não foi realizada porque o cheiro já era impossível de ser tolerado em ambientes fechados. Não sei bem... Mas Ignácio e sua trupe só tinham livre andar pelos parques de Goiânia e pela faculdade, onde habitavam. Talvez porque as pessoas depois de caminhar ou correr pelas pistas, desenvolvem um odor diferencial, muito parecido com a merda. E quanto à faculdade, todos já exalavam o mesmo cheiro, inenarrável.

 
Dias passando e Ignácio continuava paulatinamente suas descobertas. As pequisas literárias passaram, todas, a trazer algo sobre os cheiros, em especial aqueles não tolerados pelos mortais. Parafraseava Kundera dizendo que "A luta do homem contra o poder é a luta do cheiro da merda contra o esquecimento". Contava que uma sociedade morta é aquela que esconde a verdadeira essência, a merda! A faculdade da filosofia do dia-a-dia ou faculdade de merda, acabou aglutinando as demais faculdades. Os positivistas já estavam fracassados! Agora, não havia História, Ciências Sociais, Medicina ou Engenharias, era tudo Universidade do dia-a-dia, que, claro, estudava os filosofemas ignacianos. O futuro universitário estava bastante delineado: aprofundar nas discussões, para que a merda pudesse aparecer...

 
As Teorias Ignacianas ganharam respeito internacionalmente. Professores de universidades renomadas vinham ter aulas com o célebre Ignácio ou com alunos prodígios do professor. As aulas eram peculiares, a começar pela arquitetura da sala. Tinha o formato, a cor e o cheiro da merda. Não eram todos que conseguiam assistir três horas de seminários, alguns até vomitavam. Sobre o vômito, eles tinham que realizá-lo ali mesmo, entre os alunos, já que o odor do lugar trazia uma conotação pedagógica. Com o correr do tempo, a sociedade civil começou a se encantar com as novas teorias da universidade. O movimento em torno da merda cresceu tanto que o nome da universidade foi alterado. Agora sim, Universidade de MERDA! Assim mesmo, em caixa alta, pois simbolizava todos os anos de estudo daquele grupo. A sociedade já era outra! Até mesmo o presidente da república fora substituído por uma porção de merda. Quem decidia pelo país não era o presidente, mas a renomada Universidade de MERDA. Perguntado sobre as mudanças de paradigmas, Ignácio disse: "Tudo que é merda desmancha ao ar!". Não digo que morreram os movimentos de resistência, mas, um pronunciamento vindo da Universidade de MERDA, pôs fim a qualquer tentativa de retroceder, de esconder a merda. "O que acontece no Brasil já era uma reivindicação histórica há anos!" - como eram sábias as palavras daquele grupo, consideravam os mortais.

 
Os tempos mudam... E agora temos Ignácio no parque Areião, o velho Parque Areião, agora de MERDA. Sim, e na parte da manhã! Todos ali já sabem das conquistas ignacianas de MERDA, das mudanças socias de MERDA, da socialização da MERDA, das novas religiões de MERDA. A palavra merda já não podia ser escrita em letras minúsculas - desrespeito à cultura local. Agora, sempre com letras maiúsculas, MERDA! Uma revolução acontecera! Mas Ignácio acordara aquele dia de saco cheio... Não queria ser notado, estava com saudades do tempo em que caminhava sem porquê. Cansara de ser idolatrado, ser um guru de uma nação...

 
Acordou, e foi ao banheiro. Ligou o chuveiro, de onde já não caía muita água devido ao longo tempo de desuso. Tomou um demorado banho e, após uma longa reflexão, Ignácio pôs-se a fazer a barba. Em seguida, abriu o guarda-roupas e encontrou uma roupa limpa, embora um tanto empoeirada. Vestiu-se, e foi ao Parque Areião de MERDA, queria caminhar! Chegando lá, sem que ninguém o conhecesse, sentou-se ao meio-fio e começou a ouvir o mundo... O novo mundo de MERDA! Entendeu que tudo ali não passava de MERDA! Depois de alguns minutos, levantou-se e iniciou a caminhada...

terça-feira, 7 de junho de 2011

REMORRER


No quadro da criança negra me vi. Não pude deixar o encanto e relutei contra a superfície dos olhos. Se me perguntassem aonde iria, juro, não saberia resposta. Sei que hoje Bach vibrou na foto passada e meus olhos relincharam bastante. Sua lembrança já é um sermão de pai adorado, não que esse pai tenha sempre sido amor, foi, antes, fruta amarga. Eu a amargei sem por quê. A casca parecia mexerica, agora, vejo caqui dentro. Hoje sentei-me frente ao quadro e vi só vermelho-caqui! Talvez porque os ouros negros estejam realçados na imensidão dum quarto que presenciou a morte entre gemidos. Estou quase com a coragem dum suicida, pois escrevo parte da minha morte, escrevo minha distância dos demais. Confunde se pensa que quero divã, se o quisesse, estaria nos braços de alguma mulher.


Um dia o álcool, amigo macabro, me fez amar a amiga e mulher alheia. Não era muito alheia porque o macho vivia logo ao lado e eu bem o sabia. Confesso que o gato preto do dia foi o álcool, mas não foi só! Vi plantiplanto ali... e a nona sinfonia, mais estrondosa que em laranja mecânica, esbravejou meus instintos. Selvagem me vi de portas abertas. Esse quadro devia ter sido pintado de azul celeste para desmoralizar Deus, entretanto foi negra a cor da noite... O buraco na parede era toda a porta aberta à família ou quem quisesse enxergar. Paro aqui para poder nos olhos de ouro me ver. O silêncio é impetuoso! Quando o vejo, não sinto os óculos redondos da infância, não vejo Potter há tempo! Passeando, vejo a gorda que segurava seu braço, era a mesma que segurava o irmão noutra foto. Sei que a pena dum delinquente como eu deveria ser a morte, vagar eternamente. Sei que o destino meu é o de leiteiro atingindo por tiro durante a madrugada, mas eu, como leiteiro, devia sofrer mais antes da morte. Sim, podia estar entre o vermelho do pôr do sol e o branco leite. Seria justo e minha alma não voltaria agora nessa foto para dizer devaneios de alguém que permanece vivo. A área onde fica os carros, antes apenas um, chora sangue hoje... Não há forma alguma de esquecer o que ontem jorrou mais que sangue de judeu à cruz. Foram suas as veias abertas, abri apenas algumas arterias, menos importantes em mim. Mas essa foto me lembra que os olhos de jabuticabas abriram a veia femural. Eu mesmo preferi me emparedar!
Desenvolvo diálogos para dizer amor, mesmo a quem não ama. Escrevo e crio amores de plantão! Mas hoje só consegui dar passos e sentir calafrios! Suas costas, são costas de criança e são gordas como a mão gorda de quem o segura. O capim não é verde exatamente como imaginei: é frio, gélido, e é por isso que não movo minhas pernas, nem mesmo meus olhos mexem, nem um sussurro. Por que não se vira e diz 'olá'? Por que não dizer 'desgraçado' e me matar? Sei, pensa que morri, vou decepcioná-lo! Embora cego, ainda caminho... Estou nessa foto somente por causa da nossa morte. Não nego, morte! Seria hipocrisia demais mentir agora! Morri tantas vezes que não me lembro o sabor do leite ou do pôr do sol, entretanto lembro-me da cor avermelhada, minha cor crepúsculo. Morrer é existir novamente! Suas pernas são gordas, tudo é gordo, menos o capim que ainda é frio e cinza. Essa babá me olha de soslaio e eu sinto um olhar de nuca. Nunca conseguirei quebrar o silêncio! Se você, irmão, fosse dizer algo, apenas diria filosofias amigas ou filosofemas de morte, tudo se resume em vida, ou morte! Ouviria nietzdamente seus pensamentos e eu, como sempre, não teria o que falar. Talvez eu só o chamasse para jogar bola na área. Há formigas aqui e são várias. Seu olhor doce é de jabuticabas ainda... Agora entendo de onde traz isso... As formigas não montarão seu esqueleto porque você permanece vivo, formiga só monta ossos mortos. Eu juro que, se eu o matasse, as formigas sairiam imediatamente da pensão e montariam seu esqueleto, pois sua altura aqui é pequenina como um anão. Atrevo um pouco e digo algo sobre o formigueiro que não aparece na imagem. Você não liga, mas continua com o mesmo tom entorpecido (talvez porque o que disse não tenha sido palavras!). Queria perguntar o que faz aí parado tanto tempo. Aqui dentro sou todo Alice interiormente, como se quisesse sair da toca, mesmo não estando nela. Talvez, realmente não tenha coragem de dizer algo agora. Ou não esteja na hora de me ver fumaça! Não vou pousar à foto. Eu me escondo aqui, agachado, para não aparecer nesse quarto. Morri sim, porque estou dentro de um mundo que não é de platiplanto. Morri, mas sou novamente, e novamente vou morrer para nascer novamente. Ininterruptamente, continuo escondido dentro da imagem e não sei se conseguirei transformá-la em cinema... Não se incomode com minha presença! Não se incomode, querido irmão!

lição de um jovem nazista

É a história de alguém que se apresenta feliz, saltitante em quase todos os momentos: "sorridente por ingenuidade", como gostavam de dizer. Ele não precisa de nome, uma vez que a intenção é resumir a vida de quase todos os humanos. Alguns diziam que sofria de obesidade mórbida, já que tinha prazer em engolir as casas ao redor. A casa, refém de nosso personagem, logo se via sem quadros, sem livros, filmes ou bugigangas. Enquanto apenas os bens culturais eram consumidos, todos o julgavam interessante: "apesar de tudo é um garoto sensível!", admiravam. Porém, a ambição crescia dia a dia... e os móveis e eletrodomésticos também desapareciam inexplicavelmente. Depois de alguns dias de ação, o que se via era uma casa vazia e um jovem grande em alegria, que engordava consideravelmente. O interessante é que sempre parasitava uma casa por vez, jamais duas, três, quatro... (não aprendera com Hitler ainda!). Depois de esvaziar tudo que havia, o moço já bastante grande não se contentava com a parte de dentro e partia ao consumo do exterior: paredes, pintura, até que tudo voltava ao estágio inicial, um lote baldio.

Porém, nosso personagem, após degustar uma casa (principalmente aquelas grandes), inchado, muito inchado, entrava em sono profundo (já tinha tido lições com os ursos). Durante o tempo em que ficava hibernado, o ronco tremendo funcionava como um tampão e tudo que comera até ali era colocado para fora, num vômito ininterrupto. Assim, ele, gigante, esvaziava-se e voltava a um graveto de homem...

Novamente, agora ressignificado, nosso personagem-graveto está vazio. Talvez por isso alguns o classificam como bipolar, outros simplesmente como geminiano. Não se trata de dizer o que ele é: dispenso os julgamentos e inúmeras tentativas de enquadrar esse que agora já se apresenta, se não como amigo, pelo menos como nosso colega. Quando está vazio, dificilmente sente fome. Ele não se interessa por nenhum prato, nem o mais requintado e, ainda, esquece-se que se alimenta de casas, preferencialmente as grandes. Entretanto, o ciclo continua quando algum livro ou filme ou qualquer coisa que o valha, o deixa admirado. Dessa vez foi um livro, "a insustentável leveza do ser", que estava em uma estante velha, morto, sem ninguém para lê-lo... provavelmente houve uma reconhecimento entre os dois: nosso personagem deve ter sentido pena do livro - permanecia sempre fechado -, assim como o livro provavelmente teria sentido lástima pelo nosso colega (já amigo?). Nesse ínterim, o livro foi sugado de uma só vez, porém não sustentou a leveza do amigo (será colega?). Percebendo que não tinha saciado, iniciou a namorar o acervo de músicas, filmes e livros que havia naquela casa. Comeu toda "Vanessa da Matta" e iniciou um Requiem para o sonho. Obcecado, devorou os demais filmes e todas as músicas dali. Começava a crescer consideravelmente, todos percebiam a diferente forma, já não havia mais livros, nem músicas, nem filmes na casa... Ele crescia enquanto tudo desaparecia, inevitavelmente o ciclo tomava forma.

Nessa casa, moravam o pai, a filha e o espírito dito santo. Ah, havia também um discípulo da filha que morava no barracão ao lado da casa. Nosso amigo havia devorado todos os bens culturais, os móveis e eletrodomésticos, entretanto a fome continuava dilacerando o estômago. Num dia, os dois computadores desapareceram. No outro, o fogão e a geladeira. Menos de um mês e toda casa já havia sido tragada, incluindo o barracão. Tudo já se resumia a um terreno baldio e a fome não cessava, até que uma ideia inovadora se materializou ao nosso amigo-companheiro: comer gente deve preencher mais os espaços da fome. Isso porque pensava que as pessoas podiam comer outrem. Enfim, comer um ser humano era engolir várias casas... a fome podia acabar assim... (ideia interessante, não?)

Só sabe quem coloca as hipóteses à prova. Apesar de sentir bastante medo do espírito que pariava o então lote vazio, armou uma emboscada para capturá-lo. Espíritos subestimam os mortais e facilmente nosso companheiro o consumiu - agora era imortal, mesmo sem ter ciência disso. A filha linda foi a segunda a ser consumida: travestiu-se de Zeus (como espírito, já podia ser aquilo que se pensa ou mesmo que não é pensado) e comeu a garota. O terreno ficara limpo, apenas o pai estava ali. Engraçado, os livros sumiam e todos fingiam não enxergar; os computadores desapareciam e ninguém sentia falta... as paredes caíam, mas todos logo se acostumavam (o sol entraria mais facil!). O espírito também se foi, mas como não é gente para que se importar? A filha despareceu, porém é jovem "jovens vão aonde quiserem e logo volta", afirmava o desatento pai (volta?). Você já deve saber o que aconteceu com esse pai, percebeu? Crescemos mais e daqui a pouco dormiremos...

OFÍCIO-NENHUM-NÃO-É-PRA-QUALQUER-UM

Dou nó no Diabo, mas não engano uma criança. Crianças nasceram para enganar - são todas melhores que eu! Já o resto... Os mortais têm cor escura e fedem! Opa!... Não vou pelos filosofemas ignacianos, tenho meus próprios métodos.

Tenho ofício-nenhum. Isso mesmo, nenhum! Muitos desempregados dizem estar fodidos, sem emprego, sem amigos... Dá tudo na mesma! Eu não, tenho meu ofício, que é nenhum. Explico: acordo todos os dias o horário mais conveniente, geralmente depois das dez. Em seguida, faço o que deve ser! Como, bebo, cago e transo comigo mesmo. Tudo que os mortais fazem e não dizem. Sobre meu ganha-pão, prefiro chamar de ofício aquilo que chamam profissão. Tenho nenhum e, mesmo assim, como caviar e bebo champanha. Aquilo que os mortais sonham, tenho como enfeite. É resto!

Não conseguiria ensinar meu ofício para outrem, já até tentei! Para exercê-lo, não basta conhecer de pintura, carro, escola, ou coisa que o valha... É por isso que adoro assistir videocassetadas, sempre dizem para não tentarmos fazer aquelas coisas. Muito parecido com o ofício-nenhum!... Não há lugar certo para aprender o que faço: os parques, em casa, em todo espaço aprende-se naturalmente. Às vezes caminho pelos parques, outras fico em casa conversando com o cão vizinho. Moro numa casa geminada, por opção, e todos os dias ouço os ganidos do cachorro ao lado. Não sei se ficaria bem num lugar longe das vozes dos cães e dos humanos, os mortais me seduzem. Às vezes, sento-me perto da parede e dou-me a ouvir o silêncio embaraçado com os latidos do animal – faz parte do meu ofício.

Outro dia, recebi uma ligação do sujeito-que-não-me-lembro-o-nome. Ele dizia que queria aprender a minha arte. Engraçado, ele chamou isso de arte!... É mesmo incrível, os mortais têm uma necessidade imensa de dar nome às coisas. Antigamente, até eu mesmo resolvi ler livros que prometiam vida melhor. Um coisa legal foi perceber que essa literatura sempre traz um animal como metáfora: ora aprendemos a ser cães e odiar gatos, ora somos gatos que fogem de cães - li e gostei principalmente da história do escritor. O que era narrado estava no órbita do desprezível, entretanto, conviver com o livro por uns meses, na cabeceira da cama, era ter comigo quem se atreveu a passar para o papel aquilo. Eles eram mesmo interessantes! Corajosos, além de tudo! Acordei várias noites para segurar o livro... Meus pensamentos transbordavam e, noutro dia, sempre ganhava dinheiro fácil. Simples assim!

Ganhar dinheiro para quem tem ofício-nenhum nunca foi difícil. É, antes, uma consequência de estar vivo. Quem-de-si-de-ter-ofício-nenhum, está emaranhado de várias vozes estranhas (não, esse "de si de" não é meu... tirei mesmo do Guimarães!). Talvez por isso seja tão fácil dar nó no Diabo. O Demo sempre se achou seguro demais... Não tenho vocação religiosa, mas aprendi muito com as trapaças divinas.

Numa sexta, fui à feira. Comprei um gostoso pastel e danei a comer. Como sou um eterno e fiel praticante do ofício-nenhum, passei a contemplar os mortais. Eles transitavam com o cheiro próprio dos normais... Eu, que nunca estou de saco cheio para os mortais, ao contrário, dou-lhes crédito para perceber o coração, ouvi um casal que engolia pastéis. Estavam dilacerados, prestes a desmanchar o sagrado matrimônio, simplesmente porque não conseguiam pagar as próprias dívidas. O consórcio já lhes tinha tomado o veículo e a casa estava a um passo... Perguntei à mulher se já tinha lido os best-sellers - a mim, faltava-lhe uma dose cavalar de leitura comercial. A moça, como que deixando o caminho aberto, contou que o marido era viciado nessa literatura, conhecia a história do rato que roeu, roeu o quê? Ela caia na risada enquanto falava dos bichanos. Parecia um pouco decepcionada com o esposo...

Dei meu jeito cristão! Tive um acesso de caridade e resolvi levá-los ao meu apartamento. Claro, levei a um que deixara exclusivo para aventuras - toda vez que queria ouvir alguém, eu o levava àquele lugar. A mulher-falante da feira não conseguiu esconder o espanto ao entrar no meu espaço: disse sobre a decoração e patavinas mais... O marido apenas observava. Minha promessa era ensiná-los a ganhar dinheiro - esse era o sonho do casal! Na verdade, eu queria fazer uma caridade, porém sempre achei estranho dar dinheiro, chinelo, comida para outrem. Penso como meu falecido pai: “Deviam ensinar a pescar, não dar o peixe frito!”. Depois de uma longa conversa, quer dizer, monólogo, já que apenas a mulher falava, disse que não tinha como ensinar tudo naquele dia, e marquei outro encontro.

Os dias passaram e quase todas as semanas recebia o casal. Depois de alguns meses, percebendo o fracasso deles, passei a marcar sessões individuais, o que também não foi muito proveitoso. Um ano e meio de muita conversa... Confesso, queria fazer como um artesão: lapidar aquelas pessoas para fazê-las ganhar dinheiro. Todavia, o casal continuava brigando e sem um puto no bolso.

Mudei de estragégia. Numa segunda-feira, disse que começaríamos a fase prática. Essa etapa consistiria em tentar aplicar, à maneira própria, o que havia sido aprendido depois de longos dois anos. Começamos bem: elimei as sessões individuais, passei a observar e opinar em cada ação realizada pelos dois – eu estava otimista! Talvez estivesse pensando tão positivo, porque aquela era a primeira vez que tomava a docência como profissão... E não queria me frustrar!

Após duas semanas supervisionando o estágio, recebi a lastimável notícia... Meus dois alunos estavam presos! Afinal, ofício-nenhum-não-é-pra-qualquer-um!

CIANURETO

Há muito tempo não vou à casa de vovó, mas essa me parece uma boa oportunidade. Afinal, não é todo dia que ela faz aniversário, ainda mais, de noventa anos. O legal é que vovô aniversaria no mesmo dia - um dia, duas festas. Quando pequena, dizia a todos da minha vontade de ser como vó-ana, isso porque ela sempre foi dona de si, sabia cada passo que dava. Certo dia, numa confraternização de família, meu avô revelou que tinha uma amante - estava completamente bêbado. Vó-ana simplesmente curvou a cabeça dizendo que já sabia, que ela mesma havia unido os dois. É claro que ele fingiu não acreditar, mas todos ali conheciam a história. Acho vovó incrível de verdade! Mamãe, não... Ela sempre quer mostrar que não está bem, que precisa de ajuda. No fundo, morre de inveja de vó-ana. Vovó, calada como é, não entra nessa competição ridícula. Os mortais morrem querendo provar o que não são... Vovó é, e pronto, e acabou!

Hoje é dia de ir à casa de vovó! Já faz pelo menos três anos que não apareço por lá. Não por odiar aquele espaço, mas por ter que aguentar as paranoias de mamãe. Ela se apronta toda e quer que eu faça o mesmo. Odeio me pentear! Meus cabelos têm forma própria, não precisam de "forçação" de barra. Mamãe morre gritando que estou feia, enquanto papai tenta acalmá-la. Acho que ela adora ver o pai chorando: "calminha, Divina, calminha...". A tranquilidade do meu pai é um estorvo! Não suporto ver essas cenas, por isso refugio-me no meu recôndito quarto. Porém, hoje suportarei as insanidades de mamãe. Quem sabe não esqueço aquele patife? Ontem, o degenerado do meu ex-namorado, terminou sem razão e, ainda, por e-mail. Tem base?!

Entramos no carro e nos mandamos, não sem os berros de mamãe. A viagem de Anápolis a Goiânia foi repleta de queixas, sofrimentos, mas papai, tolerante até demais, tranquilazava minha mãe por alguns segundos, logo voltava a mesma ladainha. Saí de casa consciente dessa lamúria, era minha sina, já que não queria pensar naquele depravado. Ele sempre vinha à minha mente, de repente. Eu olho para o lado e passo a obsevar papai e mamãe. Na minha bolsa há bastantes doces e, é só lembrar do desgraçado, para me entupir de porcarias. Qualquer merda do mundo é melhor que aquele destrambilhado! Como que para silenciar mamãe, ou simplesmente para obter uma explicação sobre meus sentimentos, interrompo a conversa e pergunto qual a razão de eu não conseguir tirar o salafrário da minha mente. Papai limitou-se a dizer que é consequência dos quinze. Mamãe, não querendo se passar por alguém ausente, disse já ter vivido situação parecida, "isso passa!", e voltou às lamentações divinas.

Chegamos ao destino e, enfim, mamãe se calou um pouco. Entramos no apartamento, cumprimentei vovó e me sentei. Ali é assim mesmo, todos chegam se abraçam à porta e se sentam. Fazem comentários sem sentidos, comem, se cutucam disfarçadamente através das palavras "seu filho continua magrinho, magrinho...". Depois todos vão embora à francesa. Vovó fica sempre calada observando a ordem da casa, como um cão farejador. Aliás, farejar a dor é uma virtude de vó-ana, que sabe quem sofre mais, conhece bem as fraquezas de todos. Mas hoje chegamos mais cedo, não havia ninguém para abraçarmos à porta. Apenas vovó sentada contemplando o dia pela janela e minha tia Joana, a solteirona que cuidava de vovó e vovô. Minha família cumprimentou a todos, enquanto eu abraçava e beijava apenas vó-ana. Ela gostava de mim! Olhamo-nos profundamente, como quem diz um romance sem palavras. Sentada, pude observar todos os parentes, os mais diversos, chegando um a um. Alguns espalhafatosos, outros nem tanto.

Os convidados ficam sorrindo para dar o ar de festa, enquanto eu sempre os observo. São interessantes os mortais, mas ele, o sem vergonha, não sai da minha cabeça. Como um homem pode me deixar assim? É me perguntar essas coisas e pensar em vovó... Fosse como fosse, vó-ana faria tudo diferente. Olha só! Enquanto as pessoas não param de dizer que a vida é bela, que vó-ana está cada vez mais exuberante - ela simplesmente contempla a paisagem pela janela. Deve ser um saco aguentar toda essa gente! Tio João não vê a hora de ela bater as botas, quer dividir logo a herança. Esses dias, ligou lá em casa insinuando que devíamos provar que vó-ana seria incapaz. Sem vergonha igual ao desfigurado do meu ex! Vovó não, ela olha, contempla a todos com o mesmo tom, desde sempre. Nem me lembro do vovô, talvez por ele ficar ali deitado, inoperante. Será que entende alguma coisa?

Nos tempos em que vovô falava era tudo diferente. As festas eram festas! Comíamos, bebíamos... O povo ficava trêbado e acabava falando de amor. Não posso me esquecer dele, foi especial. Mas vovó vive e vive bem! Uma flor no meio desse deserto implacável. Olha lá, tio João falando que vó-ana é um exemplo de vida, "sempre amou a vida e ama!". Ah, meu deus! Mamãe até aqui... Reclamando agora de dor nas costas, sinusite ou sei lá o quê. Deve ser difícil: perceber que papai tem que dar atenção a tantas pessoas. Onde é que anda Lampião? Maria Bonita ficou desamparada! Ele não me sai da cabeça e não servem logo o almoço, que coisa! Ufa, lá vem tia-solteirona-joana. Tá tudo lá... Frango caipira, feijão tropeiro, milho, salada e, de quebra, muito sorvete...


Vou à forra! Como de tudo e ainda me lambuso no sorvete feito pela solteirona. Nossa, como tanto que parece ser vertigem esses pensamentos. Bucho cheio! Vovó-perto-de-titia-perto-de-mamãe-perto-de-papai... Nossa, vovó está caindo!... Ai, meu Deus! Vo-ana engoliu um comprimido de cianureto...

UMA MÁQUINA NADA EXTRAVIADA

A máquina continuava causando arrepios nos habitantes do vilarejo. As crianças não perdiam tempo: pululavam máquina acima. Brincadeiras de todo tipo foram desenvolvidas a partir da chegada da estranha coisa. Era grande, tão grande, que ninguém nem sonhado tinha com aquilo. Os pedregulhos, as brincadeiras, as visitas já eram controladas pela prefeitura, para não virar um verdadeiro caos.

Certo dia, ainda me manhã, um visitante nada convencional chegou ao município. Ele estava de mãos vazias: mochilas, malas não estavam com ele. Tinha o andar resoluto, parecia saber onde pisava. O lugar não tinha rodoviária, mas havia um lugar que fora convencionado para esse fim, o Pouso Alto. Era mesmo lá nas beiradas da rodovia, donde era possível enxergar todas casas. Apeou ali, sem mais nem menos, foi descendo a ladeira enorme de Buenópolis. Passou pelo único banco do lugar, que era do Brasil, e continuou com passos firmes a descida. Os habitantes não cessavam de observá-lo, cogitavam hipóteses diversas sobre a origem do rapaz. Havia uma escola, que naquele dia liberara os estudantes mais cedo. Eles estavam ainda pelo portão, conversando no sossego único de interiorzinho. Robson, continuava percorrendo a ladeira imponete, sequer olhava para os lados... Até que avistou com clareza o objetivo da caminhada.

Aproximou-se da máquina, havia dois policiais fazendo a vigilância do lugar. Parou frente aos oficiais e disse sobre seu intento - queria adentrar à máquina. Resposta pronta: impossível! Isso porque o prefeito queria conservar o espaço intacto à visitação de turistas, agora tinha dia e hora certa para adentrar o espaço. Robson, sem entender, não respeitando os limites impostos, segurou uma tecla do grande objeto, e entrou. Vinte minutos depois, estavam Robson e os dois guardas na delegacia. O delegado, que não queria se meter nas coisas da prefeitura, chamou o prefeito, mas, enquanto não chegava, jogou-se numa conversa com o desconhecido. Havia um mal entendido ali - era como Robson dizia. Foi explicado que o município já era outro após a chegada da grande máquina, que vinham pessoas de toda parte alegando ser milagroso o objeto. O prefeito, Seu Manoel, explorava bem essa ideia de milagre. Estipulara que a máquina só conseguia curar nas sextas, sábados e domingos, dia de semana ficava fechada.

Após alguma escuta, Robson achou interessante como representavam a máquina. Como um atento ouvidor dos mortais, continuava com a mesma postura rígida e de ouvidos abertos às histórias. Chegara a notícia: o prefeito estava noutra cidade em busca de patrocínio para o bendito objeto. O delegado, que por sinal adorava conversar, gostou de ter ouvidos ali numa segunda-feira-de-todo-dia. Danou a contar o que passava pelas cabeças dos mortais de Buenópolis. O padre do lugar, Juarez, estava em pé de guerra com a prefeitura. Isso porque achava ser aquele, um objeto não identificado, coisa maligna, coisa de alienígena, coisa do trem-ruim. No início não era bem assim: a prefeitura dividia a renda das visitas com a paróquia, entretanto, o prefeito instalou uma praça de alimentação dentro da máquina e se negou a dividir os ganhos. Foi declarada a guerra! A cidade estava dividida: aqueles que gostavam de dinheiro-sem-sossego e, do outro lado, os que dormiam sono-de-padre. Era coisa séria! Inclusive, os dois guardas tinham vindo de Belo Horizonte, uma forma da polícia manter a isenção. Mas todos sabiam que o delegado era católico e gostava de dinheiro, uma figura meio extraviada!...

Robson, estava sentado de orelhas em pé para a dor dos mortais. O delegado não sofria, ao contrário, dava longas gargalhadas quando falava da contenda formada no vilarejo. Depois de muita história, ouviu-se burburinhos na porta da delegacia. Eram os católicos querendo permanecer dormindo. Diziam ser o própria coisa-ruim, o desconhecido. O tinhoso tinha tomado forma de gente! Era coisa por demais que se ouvia. Uns, mais sonâmbulos que os outros, deram a jogar cruzes, benzidas pelo padre, na delegacia. Não era possível enxergar o padre, talvez porque quisesse omitir sua responsabilidade pelo atentado. O fato é que a coisa foi ficando grave. Na delegacia só tinham três policiais e o delegado - os guardas da capital já tinham retomado a vigilância da máquina. Uma cruz, mais benta que as demais, quebrou o vidro e caiu aos pés de Robson. Nela havia a inscrição "Sai, Tiubirom!"... Riram os dois, o delegado fez o favor de explicar que Tiubiron fora tirado de um música de carnaval, o que era considerado pelas beatas como coisa do chupa cabra.

Muito se ouvia ali. Agora a conversa tinha mudado o rumo, eram os manifestantes que discutiam. Olharam pela vidraça quebrada, e perceberam que os capitalistas da cidade tinham chegado - era calorosa a discussão! Depois de uma conversa quente, ouviu-se um tiro... Parece não ter matado ninguém, mas causou um grande alvoroço. O delegado, agora sim, sentiu-se convocado e foi ter com as duas dissidências. Usou de um megafone para atrair a atenção dos transeuntes. Disse para acalmar os ânimos que o prefeito já estava a caminho... E que, qualquer outro incidente entre eles, haveria de começar as prisões. O povo, cada um à sua maneira, danou a gritar: "Delegado tinhoso", ou, ainda, "É católico! Mas o Vaticano está rico que dói!"... Os lados uniram-se para destrambelhar o pobre-diabo. Conversa vai-e-vem e Robson tomava nota de tudo ali.

Após intermináveis discussões, Padre Juarez e Seu Manoel chegaram à delegacia. O padre entrou benzendo o lugar, enquanto o prefeito contava um maço de notas, pareciam falsas de tão velhas. Robson ouviu aos dois: bons argumentos acima de tudo! Depois da longa explanação, principalmente a do padre, o prefeito era mais sucinto, perguntaram sobre a procedência de Robson. Sem muito blá-blá-blá, disse apenas que coletaria as críticas, sugestões e reclamações do vilarejo - era o novo ouvidor do lugar!

Terra vazia

Os jornais estão sangrando... as pessoas, desconcertadas, vagam incansavelmente por lugares incertos. E eu, olhar meu, olhar incestuoso frustrado, não consegue distinguir as cenas que passam com tanta rapidez, são retinas deslocadas.

Sentado, sou introspecção... apenas os jornais me ligam ao mundo exterior. Parece mesmo que preciso de sangue alheio para sentir o coração batendo. As mortes no Rio de Janeiro não me fazem chorar, muito menos me causam arrepios, mas me dão a terrível sensação de existência. É, minha subjetividade aprendeu a ler desgraças, o que antes era apenas exótico já tornou-se essencial. Mas o jornal me liga a mim. Essa corrida veloz faz qualquer piloto tentar olhar à arquibancada.

Abri o jornal e trouxe a xícara de café para mais perto. Meus olhos pulam nas Coréias e sinto-me em São Paulo de guerra. As torturas policias "Ministério Público investiga possíveis casos..." são mais indícios da minha existência. Encontro-me perdido, mas o sofrimento alheio me conforta! Percebo que procuro me matar todos os dias com as notícias. Matar e ressucitar-me numa xícara de chá ou café. Percebo que minha vida está diretamente ligada às mortes, à minha morte principalmente. Se desaparecessem os jornais!... hipótese suicida, não sou imortal ainda. Meus olhos continuam procurando sangue (as notícias de ontem estão pobres!...). Desencontro-me e continuo perdido!

O café é o esquecimento da minh'alma! Enquanto morro nas notícias sangrentas (talvez só aí eu exista de fato), desloco-me à terra solitária de mim num gole de bebida. Vou-me e, às vezes, voo de mim. Talvez a verdadeira morte esteja no esquecimento (ou seria o contrário?). Talvez só esteja verdadeiramente vivo quando pressinto a morte... (e morro ao esquecer de mim?)

-Devaneios são sempre confusos e os lapsos são comuns...

Continuo sentado solitariamente. Mesmo diante da inscrição "Sala dos professores", continuo repensando sobre meus jornais. Meu pensamento é um mosaico de sangue! A vida só existe quando há notícias trágicas o suficiente para fazer o sangue circular. O que é morte se faz vida em mim. Sou um jornal de mortes e vidas... ontem era um menino que sonhava ser mestre em capoeira, mas fui interrompido por uma bala policial e morri nos braços do pai. Sou o Rio e a Coréia, de janeiro a janeiro, de norte a sul.

Afasto a xícara de café com violência o que a faz cair e manchar o chão. Alguém entra na sala e soa o sinal anunciando mais uma aula. A vida é queda, mas logo vem alguém apertar o sinal... queria ter agora minha xícara de café para soar meu sinal de esquecimento. Preciso do artifício da morte (jornais de sangue) para ter existência, assim como preciso me matar para que seja ressuscitado posteriormente. Um gole de café me faria esquecer... olhar nos jornais teria o milagre da ressurreição. Sei, talvez Jesus tenha visto um banquete de notícias sangrentas e bebido muito café... (o mistério da ressurreição foi resolvido!)... talvez todo revolucionário tenha o sofrimento como motor de existência; tenha também uma xícara de café para esquecer-se.

A xícara caiu... há bastante sangue à mesa, mas o café foi derramado. Em meu coração agora não há reconciliação imediata... vejo os jornais - mais sangue -, farto-me de notícias e o coração dispara. A mente parece vazada... o estômago range facas amoladas e meu café está derramado. Caio ao chão e, como cachorro feroz, passo a língua na superfície banhada do líquido preto. Continuo sugando, mas pouco líquido me vem à boca... o coração sangra nessa corrida... já é linha de chegada... e voo... vou sem café ao lado!

O PAU QUE FALTAVA

Nada melhor que acordar em casa depois de uma noite de bebedeira. O computador está livre, a mente já ressuscitou - não há nenhum pecado em mim agora! Meus dedos deslocam tranquilamente pelo teclado... Parece que a tão sonhada liberdade é atingida ao pressionar as teclas. Não há depressão alguma para quem aprendeu a se explodir, antes de se tornar imenso de futilidades.

Ontem, as palavras foram interrompidas sem por quê. Há um verdadeiro diálogo em quarenta minutos? Entro em sua casa escura e demoro algum tempo (cinco minutos, talvez) para ligar o motor da fala. Não se trata de timidez, mas é que tudo ali parece artificial, um laboratório para a associação livre. Depois de romper a barreira terrível do silêncio, e vencer o olhar inquisidor do analista, nossa conversa acaba sem explicações, pior, levo sempre uma pergunta diabólica: onde está minha mãe? Por isso, preciso mesmo sair daquele espaço e procurar a fala livre dos bares. Não me é suficiente iniciar um diálogo com hora certa para acabar!

Depois da minha análise, acabei-me num bar no Setor Universitário - é difícil racionalizar os poderes que norteiam os mortais. Não posso deixar de dizer que parte da minha infância foi reencontrada entre os goles de cerveja. Tudo parecia uma pintura barroca (é como se para chegar à igreja tivesse, antes, que passar por um imenso labirinto!). Conversar com Viviane foi relembrar o tempo em que não havia beijos, mas havia amor de fato. A disputa de notas entre nós tinha o poder poético-sexual! Verdade de sexta série: só quem desconhece o amor, ama profundamente!

Viviane admitiu-se lésbica. Não sei o que dizer disso... Percebo nela o terrível medo de olhar para mim... É como se não quisesse assumir que um homem já mexeu ou mexe com ela. Não sei sobre os demais mortais, mas tenho certeza que a fiz pulsar de desejo - aquele desejo infantil de sexta série... Acho que nosso reencontro nos fez relembrar essas nuances. Talvez eu seja o caminho interrompido da heterossexualidade perdida de Viviane.

Segundo encontro... Fui a um bar aleatoriamente e pedi uma cerveja, como tenho o costume insano de andar em bando, o garçom trouxe vários copos. Após os primeiros goles reparei que a menina loura de olhos azuis (serão verdes?) estava logo à frente. Em nosso primeiro encontro, Viviane estava sentada na mesma mesa que eu, mas não a reconheci. Incrível, nossa mente esconde o quer lembrar! Contudo, a vida é senhora de si; traz o que foi esquecido para o seio da consciência de forma inusitada. Quanto ao primeiro encontro: Viviane me reconhecera e os dias adocicados vieram à tona.

Voltando ao nosso segundo encontro. O garçom nos trouxe cerveja e vários copos, minha mesa estava de frente à de Viviane. Durante boa parte da noite, nossos olhares entrecruzaram-se e pude sentir algumas coisas pendentes entre nós. Esperei bastante tempo – hoje entendo que a corrida só é boa quando se contempla a arquibancada. A hora certa chegou: Viviane levantou-se como se quisesse ir ao banheiro e, meio deslocada, deu a entender que só naquele momento teria me visto. Eu, que não queria interromper a fantasia dela, também encenei um grande susto. Você aqui?! Cumprimentamo-nos... Ela se esqueceu de ir ao banheiro e ficou em nossa mesa. Durante toda conversa era nítido que minha companheira-sexual-infantil não conseguia olhar diretamente a mim, o que me perturbou bastante. Fim de noite, fiz questão de levar Viviane em casa. Ela, meio embriagada, não parava de falar que era lésbica, contava detalhadamente as experiências sexuais com o mesmo sexo. Tentei, durante o percurso, olhar para os olhos de Viviane, impossível: sempre ocorria o desvio.

Depois do nosso segundo encontro, comecei a desejar obsessivamente Viviane. Tínhamos muito em comum, entretanto minha obsessão não passava por aí. Não sei bem, acho que eu pensava na dívida... Eu tinha que pagar a dívida! Viviante tinha me contado, não me lembro se no primeiro ou segundo encontro, que depois de mim ninguém mais a teria comovido, transara muito com mulheres, mas sem o entusiasmo da sexta série - dissera sem olhar nos meus olhos. Essa era a dívida! Em outras palavras, Viviane seria lésbica pela minha ausência. Não acredito em Deus ou Diabo, mas sei que há um pecado mortal: ausentar-se da vida de uma mulher quando ela ainda está em chamas. Sem opção, queria me livrar desse pesadelo... Passei a procurar Viviane. Sabia que ela trabalhava em um hospital, desses pequenos que atendem apenas o próprio bairro. Fui lá! Entrei para observar o recinto, porém logo uma moça parou e me perguntou se estava perdido, era Viviane. Não pude deixar de rir. Após ter superado o trauma, conversamos um pouco, o suficiente para marcarmos um encontro. Disse a ela que estava com câncer, em estágio terminal, e precisava desabafar – não há mulher no mundo que não se comova com essa história. Marcamos para o mesmo bar, Pamonharia - que por sinal, não vende pamonhas - nosso terceiro encontro.

O quarto encontro aconteceu onde havíamos combinado. Tomamos algumas cervejas bem geladas – ela gostava da Devassa. Você falou que tinha algo a me contar, o que é? Viviane foi direto ao assunto, sem rodeios. Limeitei-me apenas a dizer que ali no bar era complicado comentar essas coisas íntimas. Íntimas? Ela ficou meio assustada. Após alguns minutos de diálogo, ela topou ir ao meu apartamento para que pudéssemos conversar sossegadamente. Fomos...

Viviane estava um tanto desesperada. Ainda não conseguia olhar diretamente para os meus olhos. Abrimos um vinho português, Periquita – nunca vi piadas sobre vinhos portugueses, isso deve garantir uma boa qualidade dessas vinículas. Para que Viviane não se ocupasse dos serviços domésticos, ou, simplesmente, não pensasse que sou um homem machista, ou, ainda, para que eu pudesse fazer alguma coisa longe dos olhares dela, talvez, tudo isso junto... Levei as duas taças e o vinho para a cozinha. Enchi as duas taças e trouxe, um em cada mão - o vinho ficara na geladeira. Não sou homem bem previnido, não tenho sequer gelos em casa! Ela sorveu vagorosamente o líquido não muito gelado, enquanto eu bebia um pouco mais rápido. Estou cansada! Vou deitar... Apagou ali mesmo, no tapete. Peguei o corpo macio de Viviante, levei-o ao quarto e tirei-lhe toda a roupa. Tinha uma tesoura perto da cama que foi útil para cortar os utensílios que me separavam dela. Sem roupas, e muito excitado, devolvi a Viviane tudo que lhe faltava. Penetrei uma vez e gozei... Intenso e rápido! Depois de terminar, virei ao lado e dormi...

ÀS ESCURAS

Decidi trabalhar como cabeleireiro. Não foi fácil comunicar minha nova vocação a todos. Digo nova, pois já trabalhava satisfatoriamente como carpinteiro, ajudando meu pai. Porém, fiz o que tinha de ser! Aprendi a nova profissão sem que ninguém suspeitasse, comprei os utensílios necessários com o meu próprio suor, e dei-me a aprender o novo ofício. As meninas gostavam de como fazia! E não demorou, em menos de um ano trabalhei o primeiro cabelo. Que frio na barriga... Era uma madame chata, insistente, mas pagava bem. Nós do salão - essa foi minha ideia - decidimos não colocar um valor específico, cada cliente pagava o que a consciência mandava. Engano pensar que pagavam pouco, geralmente eram ricas e gostavam de ser notadas - quanto mais pagavam, mais interessantes se julgavam ser! Algumas até que tentaram nos dar o calote, mas logo a dona do estabelecimento chegava, e, diante daquela presença ameaçadora, sempre recuavam. Judith, a dona do salão, era muito forte! Ela tinha o hábito de dizer que "A mulher tem de ser macho pra aguentar outro!". E completava: "Os homens procuram gays porque, nós mulheres, queremos ser bonecas de porcelanas"...Sempre muito enfática a saudosa Judith! Infelizmente, faleceu devido ao uso desmedido de esteróides. Após a morte, os filhos resolveram vender o antigo ganha-pão da família, alegando lembrar a figura da mãe. Foi aí que arrematei o negócio, usando toda economia do tempo de carpintaria...




Como todo ser de sucesso, enfrentava alguns problemas como patrão. No início até me preocupei, entretanto, acabei contratando um administrador para gerir os negócios. Com o tempo ocioso, pude dar vazão aos prazeres da carne... Pelo menos uma vez por semana ia ao shopping, na famosa loja Salão dos Óculos, fazer o que mais gostava. Como me seduzia aquele lugar! Óculos tão diversos em um espaço imensamente curto!




Ainda não disse que sou fanho. Meus colegas do colegial costumavam rir de mim porque eu nunca soube onde colocar os acentos gráficos - o circunflexo era o pior, quase impossível! Mas ser fanho não era de todo ruim... Além dessa maneira própria de falar, tinha, melhor, tenho, uma maneira gostosa de caminhar... Os despreparados dizem que ando rebolando, além de outras coisas mais grosseiras: chegam a dizer que minha voz é ridícula. Não digo que seja mentira! Gosto de perceber minhas nádegas mexendo. Também tenho um prazer enorme de saber que consigo falar em falsete, só converso em falsete! Observe, as mulheres jamais conseguirão ter uma voz grave, enquanto os homens, aqueles de verdade, sabem fazer a voz dos anjos a qualquer momento. Mas ser como sou, parece afetar alguns...





Quando entrava no Salão dos Óculos, percebia que minha voz-falsete-fanha causava comoção. Além disso, o remexer constante das minhas nádegas também perturbava os mortais. Tendo ciência disso, fazia com que todos ali direcionassem o olhar para o meu traseiro. Era sempre um mecanismo duplo: olhavam para minha bunda, enquanto alguns comentavam sobre minha voz. Após alguns minutos sendo o centro das atenções, fazia o que tinha de ser: subtraía rapidamente um óculos, sem que ninguém percebesse.




A escolha era aleatória, uma vez que me seduzia a ideia de pegar um óculos de um ou mil reais, na loteria. Não era o valor comercial do produto que me comovia, jamais! A história do item subtraído, sim, trazia um quê poético! Talvez por isso sempre escrevia algumas informações sobre o que era furtado. Tinha vários modelos, treze ao todo, todos oriundos do mesmo lugar, e da mesma forma. Além das singularidades dos produtos, outra coisa me agradava. Enquanto todos observavam minhas nádegas, ou cochichavam sobre meus trejeitos, eu logo tratava de esconder o item junto ao meu pênis. Era colocar o objeto dentro da cueca e sentir a ereção imediatamente. Que prazer!




Devo dizer que essa excitação não era passageira, ao contrário, durava até o momento em que chegava em casa. Antes de sair ao shopping, organizava o lugar onde ficaria a nova aquisição: um bloco de notas e uma caixa de óculos, lado a lado. Mexia nos objetos subtraídos quando não havia ninguém em casa, pra evitar comentários desnecessários. Como me excitava olhar minha coleção, um a um, sem demora... Às vezes minhas mãos transpiravam em busca de novos itens. Incrível! Enquanto não trazia mais um, minhas mãos não paravam de suar. Acho que gostava mesmo do que fazia... No fundo, todos devem sentir prazer!




Houve um dia em que minhas mãos começaram a chorar... Tentando enxugar as lágrimas, fui ao shopping em busca de prazer. Tudo como antes, todos caçoando de mim ou olhando simplesmente para minhas nádegas. Precipitei-me, achei que já era a hora certa, coloquei um óculos por dentro da cueca... Tenho pra mim que não viram o furto, mas quando notaram o crescimento da área genital, todos olharam para baixo. Infelizmente, uma perna do óculos havia ficado pra fora, o que fez um vendedor indiscreto - aliás, quase todos o são - gritar: "Está roubando!". Os dois seguranças vieram e fizeram com que eu assumisse o crime. Limitei-me apenas a dizer que já ia pagar o óculos... Fui ao caixa e efetuei o pagamento, setenta reais. Enquanto todos debochavam de mim, percebi ali uma ótima oportunidade. Peguei outro óculos que estava perto do caixa e levei-o ao pau, que logo fez o favor de crescer. Ninguém percebeu, ainda foi possível ver o valor do objeto furtado antes de sair, quinhetos reais. Não fiquei muito entusiamado com a diferença de preço, o que me deu tesão foi aquela coisa estranha perto do meu membro. Depois desse incidente, nunca mais fui à loja, era perigoso demais.






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Dois anos e nenhum objeto novo! Minhas mãos não param de transpirar, meus objetos estão desgastados e não existe produto algum que refaça o estado original dos óculos. Isso é perturbador! Ver os óculos e não senti-los brilhar... Além disso, há dois anos não visito meu salão: cabelos de madame sempre me lembram óculos - usam como bolsas, quanto maiores, maior o poder. Os olhares, o cochicho, o pau ficando duro junto ao objeto frio... Dois anos sem sexo! Dois anos sem ao menos me masturbar. Perto da minha coleção, procuro o brilho de outrora, nada! Organizo os óculos, deixo o bloco aberto e vou-me à caça...




Passo no salão, pego uma peruca e faço a barba. Em seguida, coloco uma roupa feminina, um vestido, para ajudar no disfarce. Dirijo-me ao Shopping... Entro no Salão dos Óculos e ninguém percebe que sou eu. Observo todos de soslaio e evito conversar com os vendedores para que não se lembrem da minha voz. Depois de caminhar pela loja, encontro uma vendedora novata, indico os óculos mais caros com a clara intenção de vê-los fora da vitrine. Ela, como se duvidasse dos meus reais interesses, foi lentamente abrir o vidro. Enquanto isso, subtraio um óculos da seção mais barata, passando-o por baixo do vestido... Não perceberam, mas meu pau cresceu! A moça, ainda duvidando do meu poder aquisitivo, trouxe os óculos, entretanto fez questão de deixá-los longe do meu alcance. Após analisar cuidadosamente os óculos, compro o mais caro.




Ao chegar em casa, guardo os óculos sob o olhar atento da minha mulher. Ela, estática, pergunta se tudo ocorreu bem. Hesito-me por um instante, mas acabo contando tudo. Durante meu relato, ela apenas escreve no bloco de anotações, sem interrupção. Após um longo monólogo, transamos loucamente...

CADEIRANTE POR OPÇÃO

Sou espírita de profissão, melhor, de religião. É que a ajuda que presto à humanidade não está nos semáforos, nem mesmo na periferia, ao contrário, contribuo para que os ricos continuem vivos. Cada um tem sua sina quando se pensa em caridade. Alguns passam a vida entregando moedas sujas em terminais, outros em cemitérios consolando aqueles que perderam um ente, querido ou não. O importante na linha de Kardec é seguir a própria sorte.

Todos os dias ia ao Hospital Rassi, o maior do centro-oeste. Fiquei conhecido por lá! "Home da cadeira" ou simplesmente "cadeirinha", como me chamavam ali. Sentava-me na cadeira de rodas e lançava-me à sorte. Não que eu fosse cadeirante de doença ou acidente, mas para consolar um cabra na merda, você tem que estar numa merda maior. Assim que descobri minha sina, passei a freguentar os hospitais de bacanas, mas chegava de cara limpa, roupas chiques, colar de ouro etc. Quase todos os dias eu ouvia do pessoal: "você não sabe como sofro, meu filho!" - aquilo me perturbava dum jeito... Percebi ser melhor bancar o fodido também. Comecei a usar roupas velhas, mas não foi o suficiente... Até chegar à condição atual: cadeirante por opção.

Foi num domingo. Tinha acabado de sair do hospital, um fracasso sem consolo aquele dia. Ouvi quatro vezes a mesma ladainha: "você deve ter vida boa... já se imaginou assim?". Foi aí, nesse domingo, que percebi a necessidade de me mutilar para poder consolar os doentes. Até Jesus fez isso... Andava longas distâncias com a mesma roupa, às vezes descalços, e o que acontecia? As pessoas passavam perfume nos pés dele... Paguei um médico, desses loucos por dinheiro, que me tirou uma perna. No começo foi uma maravilha... O pessoal do hospital passou a sentir pena de mim e, com isso, pude ajudá-los mais e mais. Os epítetos que recebia não me perturbavam: "cadeirinha", era o mais usado - talvez porque o diminutivo demonstra uma espécie de carinho, cumplicidade. Passei a ouvir os segredos daquelas pessoas e percebi que a caridade é algo singular. Conheci uma senhora de uns setenta anos (o nome não me recordo) a qual, depois de longas conversas, me contou que morria de vontade de abrir as pernas. Eu acabei penetrando a velha! Uma mocinha, devia ter um dezoito anos, queria que o pai dela, sumido há anos, lhe fizesse uma visita. Descobri onde morava o desgraçado e o fiz ir ao hospital. Confesso que não foi fácil... Ele só topou ver a filha quando apontei-lhe um oitão.

Um homem de vários apelidos! Chamavam-me "Robin Hood às avessas", porque no lugar de tirar dos ricos e dar aos pobres, deixava os ricos vivos, o que significa rico ainda mais rico. Mas, com passar do tempo, percebi que a falta de uma perna já não sensibilizava ninguém, tinham se acostumado comigo. O maior perigo que estamos sujeitos é o costume! Esse, esteriliza os abraços, mata lentamente... Alguém que nasceu para ajudar os ricos em estágio terminal não pode acupar o lugar do provável, do previsível, do premeditado. Os doentes do Hospital Rassi queriam minha presença para contar baboseiras inúteis. Fiz inclusive uma agenda para atender a todos. Mas era completamente sem sentido aquele tipo de conversa, não era caridade aquilo. Por isso dei um outro passo rumo à minha sorte. Essa nova etapa não seria muito aceita pelos familiares, então mantive o sigilo. Jesus também gostava do silêncio! Imagina se o salvador revelasse os segredos de seus milagres? Quantas mulheres teriam ficado sem esposos!...

Meu novo passo consistiu em tirar os pobres-diabos da mesmice. O que mata suavemente não é a doença, mas a falta de vontade de viver - li isso em algum livro de autoajuda. Só uma coisa faria os ricos saírem da monotonia. Fiz o que pude: fiquei íntimo de alguns doentes do hospital e passei, inclusive, a frequentar com regularidade a casa dos desgraçados. Dizia que, para ajudar os coitados, precisava conversar com os parentes. Várias vezes fui à casa deles... Em todas elas eu descobria algo muito valioso para o doente. O primeiro caso solucionado nessa nova etapa foi de uma médica, sofria depressão severa, estava prestes a cometer o suicídio. Como todo rico ama o luxo, não é difícil fazer o que fiz, apenas requer um pouco de observação. Essa médica, de nome Joana, amava comer uvas passas e castanhas. Todos os dias os filhos dela traziam cautelosamente as melhores uvas e castanhas do Brasil. Como já era alguém de confiança, recebia a encomenda e a entregava à doutora. Antes, porém, a entrega passava pelo meu ritual: levava-a para um químico, grande amigo meu, e ele fazia coisas estranhas com o material, retirava todo sabor do alimento. Voltava e entregava para a doente. Ela enlouquecia ao perceber que não sentia o sabor das uvas, tampouco das castanhas. Esse caso foi até simples, porque logo logo a doutora quis melhorar para procurar uvas com sabor. Outro caso interessante foi de um empresário. Amava mais que tudo a riqueza que possuía. Nesse caso, tive que atuar juntamente com os familiares. Estava com câncer em estágio terminal e resolvemos publicar em todos meios de comunicação de massa a falência da grupo C.O. CORPORAÇÕES. Ele enloqueceu... Ficou completamente curado e recebeu alta.

Atualmente estou ajudando várias pessoas ao mesmo tempo. Saí do hospital e atendo em domicílio. Ajudo pacientes diversos, todos com algumas características em comum: são ricos e estão morre-num-morre. Chamam-me SALVADOR! E salvo mesmo... após alguns meses de trabalho, sempre enlouqueço o paciente, fica curado. Mas um caso tem me chamado a atenção: um jovem de vinte e cinco anos que não sara de uma úlcera no duodeno. O interessante é que, de quando em quando, a ferida reabre, sempre fica à beira da morte. O difícil nesse caso é que o rapaz não quer a minha ajuda, sequer conversa comigo. Ontem, num diálogo com o seu pai, percebi o quão importante para a família era ter um filho doente. Muita gente visita a casa deles, vivem de casa cheia quando o rapaz está mal! Reimberg, o jovem a quem me refiro, ficou os dois meses passados sem a bendita úlcera e, nesses meses, pude me munir de informações necessárias para os próximos eventos. Percebi que bastava a ferida se fechar para cessar as visitas, exceto eu que continuava seguindo meu destino. Isso perturbava a ordem familiar... O pai ainda tentava fazer festas para comemorar o ressurgir do filho, mas poucas pessoas frequentavam aquele lugar. Batata, o filho ia ficar doente novamente. Minha ajuda nem sempre é bem quista, mas sempre necessária. Não deu outra, o rapaz adoeceu novamente, mas a diferença agora é que ninguém o visitou dessa vez. Semana passada, conversei com o máximo de familiares, disse que, por ordem divina, não era para visitar a família durante um ano. Fiquei atento para ver se alguém ia furar o trato. Tudo ocorreu dentro dos conformes: o garoto adoeceu novamente e pulou do décimo andar... Felizmente, o povo acredita mesmo nas ordens divinas. É mais um caso solucionado!... Só a família compareceu ao velório!

JÁ-DE-CRISTO

Ele gostava de sair à noite com fins nada esclarecedores. Emparelhava o carro nos semáforos e cantava a primeira música que vinha à mente. Cada noite uma história, um lugar, algumas pessoas! Havia parado no sinal da Praça Cívica com a Rua 84, carros lado a lado, permitiu-se cantarolar: "Apesar de você, amanhã há de ser outro dia. Eu pergunto a você, o que vai...", embananou-se na letra e estancou a canção. A moça, que dirigia um veículo bacana ao lado, deu uma gargalhada, furou o sinal, e se mandou. Nesse meio tempo, trouxe o bloco de anotações ao colo e limitou-se a escrever: "Sorriso cínico". Ainda parado, observou a Pastelaria 84, mortais mergulhavam cerveja adentro. Do lado oposto, um posto, e alguns habitantes da noite, moradores de terra nenhuma. Parou e desceu.

Aproximou-se dos dois rapazes que estavam sentados, não percebera a presença da mulher. Calado, sem olhar diretamente aos dois, começou a cantar um rap, Diário de um detento. Um deles, continuou silenciosamente a canção... apenas mexia braços e pernas! Comentaram algumas coisas sobre o louco cantor, mas nada em especial. Rafael, esse que queria a aproximação dos habitantes da noite, foi até a loja de conveniência, comprou duas cervejas e retornou. Chegou ainda mais perto dos moradores e entregou-lhes, uma a uma, as cervejas. Infelizmente, não percebera a singela presença da moça encostada. Ela, que também queria a bebida, pediu um poema, já que não ganhara cerveja. Segundos depois, Rafael, afeituoso à fala, declamou um poema de um autor nada conhecido: "Pai nosso que estais terra/ Profanado seja vosso nome/ Vem a nós, nosso reino/ Seja feita nossa vontade/ Na terra ou em qualquer lugar/ A vontade de poder nos dai hoje/ Perdoai nossas crenças/ Assim como fingimos acreditar em vós/ Deixai-nos em plena tentação/ Mas tirai-nos da mente a tola ideia do inferno/ Amém!"

Todos se maravilharam! O espírito santo havia tocado os imortais. A moça, não satisfeita com os versos, demonstrou desejo de falar, e em inglês - verdade ou não, insistiram todos para que ela debulhasse o idioma anglo-saxão, ali, sentada ao meio-fio. Ela, porém, ciente dos poderes dos imortais, exigiu, antes, uma Heineken ... Aí sim, falaria como quem domina a língua materna! Não demorou para que trouxesse a chave da nova língua: promessa feita, promessa cumprida, era o trato dos habitantes de terra nenhuma. "Yes, it's the beer!", estrebuchou a falar... Rafael, tentando transformar o monólogo em diálogo, fora bruscamente interrompido por Jade, a moça - alegara apenas ser obra do Besta-Fera, aquele idioma.

Na fala calma de Jade havia um quê de coisas perdidas. Ela iniciou a conversa contando sobre o Besta-fera. Era um monstro de vários olhos, o Demo! Após dizer sobre os poderes incríveis do ser, Reymond, um imortal das ruas, começou a evocar o coisa-ruim. Conclamava a presença do monstro sem nenhum receio... Jade, moça que pedira o poema, entretanto, curvava a cabeça - dizia para não continuar as provocações. Uma cena esdrúxula! Rafael querendo o ver o circo pegar fogo, Reymond, bêbado, evocando a Fera e a moça dizendo baixinho: "sou-de-Cristo, sou-de-Cristo, sou-de-Cristo". As bizarrices não pararam por aí... É que Rafael quis saber se o Besta-Fera estaria por ali, nalgum lugar. Ela estremecia, entristecia...

Arcanjo, irmão de Reymond, também imortal das ruas, foi muito prudente. Percebendo que Jade estava desfalecendo, chamou o irmão e deu-lhe uma tremenda bronca. Ainda, apenas com o olhar, mostrou a Rafael que aquilo era perigoso demais. Um minuto de silêncio! Um playboy, mortal como a maioria, saiu da Pastelaria, completamente embriagado, e tentou entrar carro adentro. Reymond, que conhecia os mortais, de longe-longe gritou por uma moeda - disse precisar de combustível para funcionar! Uma moeda, juntamente com o complemento de Rafael, e mais uma cerveja. O interesse ali, dos três, era a vida de Jade. Após alguns goles, continuou falando...

Contou que nascera em Nova Orleans e que morara por lá até os cinco anos. Ali tinha sido estuprada - uma lágrima desceu - e fora vendida a uma estadunidense que morava no Brasil. Veio para cá aos cinco, trabalhara escravamente na casa dessa mulher até os doze... Fugira em seguida. Rafael, impressionado, perguntou sobre a mulher, onde estaria aquela que comprara Jade um dia? Morta, resposta fechada. Aos doze, saíra da escravidão e fora à rua... Tornara mais uma habitante da Terra-Sem-Lei!

Comoveu a todos, aquela conversa! Foi preciso Rafael trazer uma Heineken para cada um digerir o que ouvia. Jade, percebendo que os ouvidos ali eram a ela, continuou a fala-pela-fala. Surpreendeu aos ouvintes, saber que o Besta-Fera estaria ali, ela estava vendo o Trem-do-Mal... Jade afirmava com toda convicção do além-mundo, dos imortais! Curvou novamente a cabeça e entrou na mesma ladainha: "sou-de-Cristo, sou-de-Cristo, sou-de-Cristo". Aquela fala não terminou ali! Continuou a mesma fala-lunática... Sem paciência, Raymond pegou sua sacola com os pertences e se mandou. Arcanjo, mais solidário que irmão, encostou a cabeça de Jade ao ombro... Percebendo que Jade não sairia do surto, Rafael entrou no carro, parou no primeiro semáforo ao lado de um caminhão. Abriu a boca e começou a cantar.

OLHOS ABERTOS!

Vir à praça num domingo tem um brilho especial. Não é porque já começou a florir, ou pelos cachorros que, aliás, são sempre incríveis. Adoro flores e amo os cães, mas o que me chama atenção nos parques de domingo está em outra atmosfera, na órbita do que não se pode dizer, naquilo que não se compreende. O juízo extremado dos humanos me põe fim ao imenso prazer contemplativo dos jardins. Eles não sabem olhar: veem sempre o que está fora com o julgamento interno. Jamais conhecerão o doce olhar natural...



Quando nasci, fui prometido em casamento à vizinha, melhor, à filha da vizinha, que até então não tinha nascido. Desde pequeno fui aprendendo a amar uma pessoa que não existia. Eu, como meu papai dizia, era alguém diferente de todos, pois já tinha aprendido a sentir. Mamãe falava que "Crianças levam tudo na brincadeira, já que quase ninguém as entendem". Entendo isso agora: os adultos geralmente não percebem que a fantasia revela aquilo que é difícil dizer, ou até impossível! Lembro-me, claramente, quando me apeguei à gatinha da minha falecida mãe. A gata cujo nome me arrepiava, chamava-se Dendê - não sei por que cargas d'água esse nome causava calafrios. Confesso que ainda hoje não compreendo tudo, apesar de já ter passado noites a fio refletindo sobre essas sensações esdrúxulas. Ficávamos noites inteiras juntos, eu e Dendê, sem fazer nada, apenas nos olhando... Eu não permitia que ela dormisse antes de mim. Habituei-me a esperar Dendê dormir primeiro, após o maravilhoso sono, eu apagava. Isso se repetiu até meus doze anos, quando outras coisas foram me interessando mais. Não digo que deixei de amar Dendê, até hoje carrego a correntinha dela na carteira, mas é que, depois dos doze, comecei a me interessar pelos parques.




O início foi muito difícil. Uma forte atração me conduzia aos parques... Passava a parte da manhã inteira por lá! Mas quando chegava em casa sentia um tremendo remorso - tinha traído Dendê. Mesmo assim não censurei minha imensa vontade de contemplar: olhava as flores, em especial as brancas e amarelas, os cachorros e as crianças. Observar os cães era sempre mais doloroso! Como podia admirar os inimigos de Dendê? Isso era traição!



Comecei a amar cães e flores. Não havia nada mais cruel que ver cães pisando nas flores, aquilo me dilacerava. Minha gata já não estava bem, ela carecia de cuidados especiais, mas o que eu fazia? Passava o dia inteiro nos parques... Ora num, ora noutro, mas sempre espreitando as flores e os cães. O adoecimento de Dendê foi se tornando mais grave, não posso ocultar o sentimento que me apoderou covardemente... Fui impelido por uma força maior que eu, como um Deus ou alguém que brinca de lego... Sei que era uma força descomunal! Não resisti, fui à cozinha, peguei uma faca de serra e destruí os pelos de Dendê. A coitada ficou tão feia, cheia de caminhos de rato no couro... Ela me olhava sem compreender, porém, ainda mais forte, veio a vontade de cortar o pescoço da gata. Assim o fiz! Arranquei a cabeça de Dendê. Os olhos dela estavam fechados, e logo tratei de abri-los. Sem porquê trouxe a porção ensanguentada para mais perto de mim e mordi os olhos da gata, um por um. Senti o gosto de sangue forte na boca, ainda passei a língua nos olhos, nos dois, antes de engoli-los. Depois daquele "banquete", entrei em sono profundo...




Ainda não disse muito sobre a minha vizinha, dona Raimunda. A filha realmente nasceu, mas eu já tinha sete anos. Não achei estranha a diferença de idade, talvez porque meus pais já tivessem me preparado o suficiente. Minha mãe dizia "Seu pai é dez anos mais velho que eu, me ama dez vezes mais que todos os outros!". Não sei exatamente o que sentia ao ouvir isso, sei que gostava das expressões que minha mãe fazia... Como ela gesticulava! De Raimunda nasceu Rebeca e com essa iria me casar.



Completei treze anos, Rebeca estava com seis. Dendê já havia se retirado do plano material, os parques estavam saturados de mim - minha coleção de orquídeas tinha murchado e os cachorros perderam o encanto. Rebeca sim, permanecia formidável! Ela ia para a minha casa e ficava mexendo nas coisas sem pudor. Gostava de vê-la brincando com tudo e todos. Ela sabia me encantar... Olhava de longe e abria um grande sorriso. De vez em quando sentava ao meu lado e danava a sorrir, antes mesmo de começar a fazer cócegas nela. Era magnífico! Aproximamos um do outro sem perceber... Esqueci, ao menos por um tempo, gatos, flores ou cachorros.



Numa manhã de domingo, Rebeca sentou-se ao meu lado esperando por "cosquinhas", entretanto não foi o que propiciei. Os olhos já estavam fechados e eu, não sei por que, mordi vorazmente a face dela! Esse fato foi o suficiente para trazer toda casa à sala... Não sabiam qual tinha sido o bicho que havia feito tamanha barbárie. Eu, como que possuído, apenas disse que tinha sido um cão feroz que já havia se mandado. Ninguém queria saber exatamente sobre o cachorro, queriam cuidar dos ferimentos causados pela mordida. Por obra do acaso, não descobriram que fora eu. Os ferimentos foram leves, embora bastante doloridos, mas nem isso fez Rebeca "abrir o bico", não ficaram sabendo o real autor. "É realmente uma boa esposa", pensei.




Os anos passaram... Só eu e Rebeca dividíamos nosso segredo. Já compartilhávamos outras coisas também: contas a perder de vista, gatos, flores, cães e um lindo bebê. Tinha aqui vinte e seis anos, e amava minha mulher. Meu amor era dividido entre meus três cães vira-latas, dois gatos siameses e bastantes flores diversificadas. Além disso, tínhamos Sara, nossa linda filha. Até que...




Era uma manhã de domingo, dia vinte e quatro de dezembro, minha família havia acordado cedo, enquanto eu ainda permanecia preguiçosamente na cama. Levantei-me sem pressa, e dei-me a contemplar o jardim que a mim se oferecia cheio de gotas de orvalho. Não pude deixar de sentir um êxtase ao olhar aquelas maravilhas! Depois de um tempo vendo o jardim - flores diversas, cães pulando e gatos escondidos -, minha maravilhosa filha entrou no quarto. Não sei o que me deu... Apenas a trouxe ao colo e, enquanto ela, de olhos fechados, pedia "Papai, faz cosquinhas!", eu me aproximei daquele rosto angelical e mordi ordinariamente o olho direito! O grito foi estrondoso, mas não parei por aí... Selvagemente, permaneci com ela segura, na mesma posição, e mordi o outro olho de Sara. Muito sangue jorrava... Tentei estancar a ferida, mas já era tarde demais...

Um imortal quer ser ouvido

(...) os verdadeiros adoradores adorarão em espírito e em verdade (...) João 4:23


Saio à noite, pelos vales de Santo Antônio, ou em Buenópolis-de-infância, ainda, na Praça Cívica, ou em qualquer lugar – é onde encontro os esquecidos. O gozo da escuridão me faz como Poe, faço digressões para ouvir mais, é só mais uma sexta. O sexo explícito dos imortais dá voz a quem perdeu a língua, mas não são os lugarejos ou as pessoas, ou mesmo o clima, é a imortalidade que me persegue, em casa, nos trabalhos normais, mortais!

Ontem, nesse mesmo horário, estava deitado num banco, na praça Valter Santos. Era quinta-feira, eu tinha tomado três copos de suco de maracujá e alguns de caldo de cana... Meus pés deslizavam céu acima, sequer sentia os batimentos cardíacos, não havia relógio naqueles eternos instantes. Os dedos das mãos ficaram em pleno gelo, enquanto os pés tocavam sutilmente a ponta de um Ice Berg. Flutuei por ambientes confusos, sem reflexão, sem o aprisionamento da vã memória...

Agora, anuncia-me a sexta! Bares lotados de mortais... Hoje meu trajeto será rumo a Buenópolis de mim. Porém, para chegar aí, geograficamente talvez tenha que passar pelas praças “C”, Valter Santos ou Cívica. Como alguém que já renasceu no próprio corpo e no mesmo tempo, deixo o carro me guiar no desrumo de mim. Desço na praça “C”, entretanto não há, nessa noite, um só imortal aqui. Bebo só, imortalizo-me no verde cinzento da praça! Continuo a trejetória desajeitada...

Na Praça Valter Santos há bastantes de mim. Alguns parados fumando, outros proseando sozinhos – um bebe algo estranho, de cor verde. Essa é a noite do verde! Mas não é cor-capim, é um cinza esverdeado... Apesar de saber que conheço intimamente todos ali, sequer interrompo meu desrumo. Imprevisivelmente, chego à Praça Cívica! Ultimamente meus delírios estão me guiando ao centro da cidade. Os imortais continuam sentados no mesmo lugar, onde cabe apenas uma banda da bunda. Eles ficam bem ajeitados por lá. Sou recebido com pouco clamor, como sempre... Os delírios coletivos têm algo de igreja. Todos habitantes da noite sentados, rezando um devaneio geral, apenas meia bunda se senta, a outra desbunda em pensamentos...

A fala deles hoje não tinha muito afinco. Quer dizer, sempre há gozo ali, mas, hoje, era individualizado, cado um no seu próprio delírio. Arcanjo sorria, Reymond tomava 51, cabeça longe longe, e Jade fissurava no Besta Fera. Apenas não me interessei por eles hoje. Carro adentro, fui a Santo Antonio. Novo ambiente, mas nenhum conhecido. "Ney saiu" – fato quase impossível a quem conhece esse imortal! Paro em frente ao Bar do Valdoney, munido de uma cerveja que já esquentara, e deito no banco da praça.

Vou a Buenópolis-de-infância... Mas num estado de inconsciência, de letargia, vagueio pelos trilhos da rede ferroviária, pelas mangueiras da cidade... Da ladeira do Banco do Brasil sou lançado à Escola, dali, desordenadamente, voo às núvens. O monza de papai comparece sem por quê! Vago de lado a lado! Sou a própria rua inteira! Sou a ponte que mamãe ultrapassou sem ninguém ajudar: “nenhuma mulher já passou por essa ponte, para!”... Sou a ponte, as ruas, as casas, as janelas dos casarões. Sem aviso, sou devolvido à terra!... Um imortal, bêbado, quer meus ouvidos.

Buceição

No início ela acompanhava o marido em todas as visitas aos fiéis. Pastor Rubem, o marido de Conceição, era um rapaz nada simpático com os homens, já com as mulheres, principalmente as mais jovens, ele tinha grande estima. Conceição conhecera o pastor num orfanato. Ela media um metro e meio e tinha pelos onze anos. Ele, homem formado, fazia orações quinzenalmente naquele lugar. Não se sabe exatamente a razão, mas Rubem passou a olhar a adolescente de forma mais contemplativa que as demais.


Conceição não tinha traços que atraíssem a presença masculina, mas o corpo... O corpo de onze anos tem um quê de perversão! Os seios, basta mudar o tempo para despontar os bicos saltitantes. As pernas, torneadas naturalmente... Não há academia que dê conta daquilo. As demais fiéis do pastor Rubem começaram a perceber que Ceição estava recebendo um tratamento especial: não só ganhava frutas, doces, principalmente chocolates, como sempre era a primeira a ajudar o pastor nos momentos de apuros. Não deu outra, todo orfanato passou a comentar a amizade dos dois.


O tempo passou, e pastor Rubem resolveu assumir o que consumia o coração. Ceição tinha por volta dos treze anos quando passou a viver junto com o pastor. Foi um verdadeiro escândalo... Os fiéis deixaram a congregação alegando pedofilia naquela relação, mas, claro, o esquecimento é uma boa arma, até ao mais nobre cristão. A maioria dos irmãos deixou-se levar pelos fortes argumentos do pastor: “O inimigo está à espreita! Quer roubar nossa alma, irmão!”. Casou-se com Ceição, mas alegava ser apenas uma mucama – para reaproximar os fiéis. Assim aconteceu! Após alguns meses, boa parte da congregação já estava cantando e pedindo perdão pelos pensamentos malignos. Como eram pertinentes as palavras do pastor!


Pastor Rubem demorou penetrar Conceição. Achava ser muito cedo! Antes, porém, fez o favor de demorar bastante nas preliminares, era uma preparação importante. Chegava a ser cansativo, mas necessário! Toda noite, chupava tanto os lábios carnudos da vagina de Ceição que, no outro dia, ela não parava de reclamar dor. Deve ter sido numa dessas que a garota rompera o hímen... Num certo dia, cansado de passar horas a língua nas genitais de Ceição, resolveu penetrar a jovem moça. Nesse dia, fez uma grande preparação... Antes de iniciar, orou a Deus e pediu que abençoasse o casal: “Em nome de Jesus, amém!”. Preparado, abençoado pelos céus, lançou-se à empreitada. Beijou demoradamente os lábios da moça, e, quando já estava prestes ao gozo, tirou as próprias roupas e entrou em Conceição. Não houve resistência alguma, o pênis passara tão fácil que o pastor ficou assustado, entretanto, para não admitir que tinha o pau fino, fingiu que estivesse tudo normal. Encenou o gozo e dormiu... Ela, por outro lado, que não esperava com muita ansiedade o gozo do marido, teve certeza que aquele não era seu pau-amado – e foi à luta.





Sou filho de um casal feliz! Meus pais se casaram bem depois do meu nascimento. Tinha dez anos quando papai e mamãe foram ao cartório – lembro-me como se fosse hoje! Mamãe forçara o casamento, porque tinha medo da ajudante fiel do pastor Rubem – Ceição jurava ter achado o pau-amado, o pior que era justamente o do meu pai. Nós três – eu, papai e mamãe – íamos todos os dias ao culto, exceto sexta-feira que não tinha.


Era sexta-feira, umas quatro da tarde, estávamos com a senha de número 666 aguardando a hora certa para dizer: Madalena e Epicuro, marido e mulher. Não teria festas, mas o importante para minha mãe é que a aliança nos dedos do casal tivesse o efeito de afastar mulheres mal intencionadas. Quatro da tarde, e quem aparece? Conceição. Meu pai ficou estarrecido; minha mãe franziu a testa e fechou as mãos. O clima tinha ficado tenso! Eu, que sempre fui brincalhão, não percebi a presença da ilustre Ceição. Notei apenas a fala de mamãe: “Epicuro, se olhar essa lambisgoia, eu vou embora”, e ia mesmo... Foi aí que resolvi olhar Ceição.


Olhei e não me contive... Conceição engordara muito! Além do mais, estava com uma calça tão apertada – acho que o número estava bem aquém do dela – que transparecia a rachadura da boceta. Havia um corte claro, um cofre na parte da frente! Sem perceber, gritei: “Cuidado, pai! Lá vem a BUCEIÇÃO!”. Todos no lugar ouviram e caíram na gargalhada... Minha mãe, a recatada Madalena, não conteve os risos, quase vomitou... Até meu pai, com tom áureo de sempre, acabou abrindo timidamente um sorriso. As pessoas em volta não se intimidaram, soltaram o saco de risada... Muito divertido! Quando Buceição percebeu que eram para ela aquelas insinuações, virou as costas e se mandou. Não sei bem, mas penso que minhas brincadeiras não são de todo ruim... Papai e Mamãe continuam juntos e continuarão eternamente.

Ensinamento Pagão

Tenho uma família guerreira! Eu mesmo sou de paz, mas não nego as batalhas. Eduquei meus filhos nos trilhos do amor próprio e sempre acreditei que tudo existe como símbolo... então, dizia aos meninos "aos doze anos quero uma prova de sua existência". O primeiro entendeu bem o que eu disse: foi coroado mestre em xadrez aos onze. O segundo, ainda meio cambaleate, fruto da precoce juventude, engravidou uma garota da mesma idade. Tudo conforme havia ensinado... eram homens!

Mas como na vida há sempre um terceiro, meu caçula fez questão de me deixar em parafusos. Ainda aos três anos, apresentou uma garota dizendo ser sua namorada - coisa de criança é sempre bonitinha! Minha esposa Maria, que deus a tenha, ficava com a pulga atrás da orelha. Olhava de lado, procurando observar o que o casal de pombinhos fazia no quarto. Ela entrava sem porquê, ele parava e observava a mãe, até ela sair do recinto.

Quando Judas, o caçula, completou quatro anos - era a festa de aniversário -, ele não foi encontrado em casa. As comemorações tiveram de ser encerradas, porque o aniversariante não estava presente. Todos pensaram no pior, sequestro ou coisa parecida. Passou pela minha cabeça que, se pedissem resgate, entregaria minha mulher... não entendo bem, mas toda vez que estou numa situação ameaçadora, penso besteira. Não, não era resgate, nem mesmo sequestro! Judas foi encontrado num quarto com Dimas, um amigo da mesma idade, e Gabriela, a namorada deles. É, os dois namoravam a garotinha Gabi. Mais uma vez a idade foi usada como justificativa - crianças e só!

As coisas foram ficando cada vez mais acentuadas, mas a idade continuava uma chave para entender aquele fenômeno. Eu, que desde muito novo sou educador, não tenho diploma, mas sei educar, percebi ali um quê de genialidade no meu filho. Não pude externar isso, para não gerar inveja nos mais velhos. Apesar disso, já era claro a precocidade do garoto. Aos seis anos conseguiu o título de grande mestre em xadrez. Desafiara grandes adversários e a vitória era quase sempre uma aliada. Em todos os jogos oficais, perdera apenas um... contra Gabriela. Há aí uma controversa: alguns sustentam que ele perdeu para não magoar a namorada, outros dizem que Gabi usou de jogo sujo - encostando as pernas nele, debaixo da mesa. O fato é que viviam naturalmente: ele, ela e ele.

Para que meus filhos entendessem a vida como símbolo, tive que dar algumas demonstrações. Eles nasceram todos no dia de natal, isso porque via neles um ar de Jesus. Não aquele que veio para salvar o mundo ou morrer numa cruz, jamais! O contrário, aquele que ensinava "padre a rezar", aquele que transformava água em vinho ou que dizia "não é chegada a sua hora". Esse era o verdadeiro! Dizia aos pequenos que queria vê-los como aquele ser que falava por parábolas. Fiz mais! Todos nasceram no quintal de casa, sobre palhas, e era sempre parto normal. Desenvolvi esse método e funcionou, eles se tornaram grandes deuses de si.

Os doze anos estavam se aproximando de Judas. Lembrei-me que meu primogênito, além de ser coroado aos aoze mestre em xadrez, foi, por conta própria, à selva. Era uma fazenda de um grande amigo, Pedro, e ele ficou por lá, entre os animais, quinze dias - pensei ser símbolo suficiente para a consagração de sua humanidade. Meu menino do meio, também não ficou satisfeito em engravidar a moça, e lançou-se à mata fechada. Após quinze dias enfurnado na fazendo de Pedro, reserva ambiental e patrimônio da humanidade, ele saiu de lá trazendo uma sucuri. Já tínhamos consolidado a fazenda de Pedro como palco ao ritual.

Chegada a vez de Judas! Quinze dias antes de completar doze anos foi lançando selva adentro. Os quinze dias passaram e todos começaram a cogitar hipóteses: dever estar lutando contra os leões, matando onças, vivendo com os animais etc. Doze anos já se passaram, ele não apareceu ainda, e até hoje continuam as especulações...

Satanice

Todo dia Joana acordava às cinco e meia para cuidar da sogra. Levantou-se aquele dia, cuou o café, levou-o ao marido e à mãe dele, ambos ainda sonoletos. Há algum tempo, o marido, Geraldo, deixara de dormir com a esposa, alegava que a mãe necessitava de maior atenção. Toda justificativa tinha como premissa básica o câncer no reto de Dna. Mariana, afinal o sofrimento era realmente intenso. Entrou no quarto da sogra, Geraldo estava abraçado de conchinha com a velha, e apenas deixou a bandeija sobre o canapé, em seguida, pôs-se a lavar as louças do dia anterior. Dna. Mariana, como de costume, levantou um pouco o pesado corpo, provou o café e reclamou a falta de açucar...

O dia apenas começava! A velha bebeu aquele café, apesar da reclamação, enquanto Geraldo vagarosamente levantava e se punha a observar o dia pela janela. Joana, moça humilde e carinhosa, casara-se com aquele sujeito por motivos ainda não bem esclarecidos. O fato é que queria uma família, filhos, cães etc., entretanto, nada disso tinha sido proporcionado a ela, nada! Um ano após o casamento, ela teve que cuidar da sogra, isso porque Geraldo convencera a esposa a não trabalhar. Ela aceitou, casaram-se e uma nova vida foi dada a ambos.

O provedor da casa já tinha se arrumado e ido ao trabalho. A velha, deitada, clamava pelos anos idos... E a casa, a cada instante, ficava ainda mais brilhante. Joana, com um novo produto revolucinário de limpeza, deixava tudo impecável. Esfregava daqui, dali, e o brilho escondia uma vida inteira! Estava a limpar o armário, local que guardava as fotos dos anos de juventude, e, sem querer, esbarrou num portarretratos, que chegou a cacos em milésimos de segundos. Joana ajoelhou-se sobre os cacos, machucando-se, e pegou a foto. Ela estava abraçada com Geraldo, época de namoro, e lá no fundo, encostado num carro, um rapaz observava o casal, era o ex-namorado, João. Num ascesso de fúria, Joana rasgou a foto!

O dia continuou... Preparou o almoço como quem come marmitex fria e serviu à velha. Diante de intensas reclamações, a doente comeu um pouco. Disse que estava cheia e deixou o prato perto da cama. Ao recolher os objetos sujos, Joana tropeçou no próprio pé, e deixou o prato cair... espatifou-se ao chão. Cautelosamente, retirou os cacos e varreu a quarto. O café da tarde foi servido, no horário certo, exatamente! E, para manter o costume, o marido chegou às 18:45... Geraldo entrou e foi direto ao quarto da mãe, abraçou-a e conversou por alguns minutos com a velha. Em seguida, tomou um banho de gato e já estava pronto, iam à igreja, como nos dias anteriores. A esposa, que já não tinha vaidade alguma, tomou um banho mais rápido que o marido. Prontos, deixaram a velha reclamando e foram louvar a deus.

Entraram igreja adentro e tudo estava como de hábito, somente os obreiros não estavam à porta. Geraldo chegou a comentar com Joana, mas logo justificou dizendo que o pré-culto devia ter se prolongado - todo dia, antes de iniciar o louvor, algumas pessoas, aquelas mais usadas por deus, se reuniam para decidir o que aconteceria durante o culto. Sentaram-se aos fundos, no mesmo lugar de antes, e esperaram começar os hinos. Não conversavam em respeito à casa do Senhor, mas de quando em vez Geraldo observava Joana de soslaio. Ela, claro, já sabia o que significava aqueles olhares: "vamos orar pela mamãe!" - E oravam mesmo!

Alguns irmãos chegavam e, à maneira de Geraldo e sua esposa, sentavam-se e danavam a orar. Oravam pelas velhas, pelo culto, pelos governantes e pelo pastor, principalmente. Nove em ponto e o culto ainda não começara, estranho! Afinal, ser ovelha do pastor Rubem tinha uma vantagem, a pontualidade e organização. Quinze minutos de atraso e os fiéis começaram a cruzar os olhares, o que significava mais oração. Todos orando, orando mais e mais! Meia ora, e Joana já tinha perdido a concentração, mas o olhares do marido diziam para voltar-se a deus sem consolo. Nenhuma voz se ouvia no templo, nenhuma, porém muitos pedidos chegavam ao mesmo tempo aos céus...

Passado quarenta e cinco minutos de oração, um rapaz encapuzado saiu da sala do pré-culto, enquanto outros fechavam as portas que conduziam à saída. O rapaz anunciou a volta de Jesus e pediu as bolsas, carteiras, anéis... enquanto Joana ria, os fiés do pastor Rubem continuavam as preces, ainda com mais fervor.