No quadro da criança negra me vi. Não pude deixar o encanto e relutei contra a superfície dos olhos. Se me perguntassem aonde iria, juro, não saberia resposta. Sei que hoje Bach vibrou na foto passada e meus olhos relincharam bastante. Sua lembrança já é um sermão de pai adorado, não que esse pai tenha sempre sido amor, foi, antes, fruta amarga. Eu a amargei sem por quê. A casca parecia mexerica, agora, vejo caqui dentro. Hoje sentei-me frente ao quadro e vi só vermelho-caqui! Talvez porque os ouros negros estejam realçados na imensidão dum quarto que presenciou a morte entre gemidos. Estou quase com a coragem dum suicida, pois escrevo parte da minha morte, escrevo minha distância dos demais. Confunde se pensa que quero divã, se o quisesse, estaria nos braços de alguma mulher.
Um dia o álcool, amigo macabro, me fez amar a amiga e mulher alheia. Não era muito alheia porque o macho vivia logo ao lado e eu bem o sabia. Confesso que o gato preto do dia foi o álcool, mas não foi só! Vi plantiplanto ali... e a nona sinfonia, mais estrondosa que em laranja mecânica, esbravejou meus instintos. Selvagem me vi de portas abertas. Esse quadro devia ter sido pintado de azul celeste para desmoralizar Deus, entretanto foi negra a cor da noite... O buraco na parede era toda a porta aberta à família ou quem quisesse enxergar. Paro aqui para poder nos olhos de ouro me ver. O silêncio é impetuoso! Quando o vejo, não sinto os óculos redondos da infância, não vejo Potter há tempo! Passeando, vejo a gorda que segurava seu braço, era a mesma que segurava o irmão noutra foto. Sei que a pena dum delinquente como eu deveria ser a morte, vagar eternamente. Sei que o destino meu é o de leiteiro atingindo por tiro durante a madrugada, mas eu, como leiteiro, devia sofrer mais antes da morte. Sim, podia estar entre o vermelho do pôr do sol e o branco leite. Seria justo e minha alma não voltaria agora nessa foto para dizer devaneios de alguém que permanece vivo. A área onde fica os carros, antes apenas um, chora sangue hoje... Não há forma alguma de esquecer o que ontem jorrou mais que sangue de judeu à cruz. Foram suas as veias abertas, abri apenas algumas arterias, menos importantes em mim. Mas essa foto me lembra que os olhos de jabuticabas abriram a veia femural. Eu mesmo preferi me emparedar!
Desenvolvo diálogos para dizer amor, mesmo a quem não ama. Escrevo e crio amores de plantão! Mas hoje só consegui dar passos e sentir calafrios! Suas costas, são costas de criança e são gordas como a mão gorda de quem o segura. O capim não é verde exatamente como imaginei: é frio, gélido, e é por isso que não movo minhas pernas, nem mesmo meus olhos mexem, nem um sussurro. Por que não se vira e diz 'olá'? Por que não dizer 'desgraçado' e me matar? Sei, pensa que morri, vou decepcioná-lo! Embora cego, ainda caminho... Estou nessa foto somente por causa da nossa morte. Não nego, morte! Seria hipocrisia demais mentir agora! Morri tantas vezes que não me lembro o sabor do leite ou do pôr do sol, entretanto lembro-me da cor avermelhada, minha cor crepúsculo. Morrer é existir novamente! Suas pernas são gordas, tudo é gordo, menos o capim que ainda é frio e cinza. Essa babá me olha de soslaio e eu sinto um olhar de nuca. Nunca conseguirei quebrar o silêncio! Se você, irmão, fosse dizer algo, apenas diria filosofias amigas ou filosofemas de morte, tudo se resume em vida, ou morte! Ouviria nietzdamente seus pensamentos e eu, como sempre, não teria o que falar. Talvez eu só o chamasse para jogar bola na área. Há formigas aqui e são várias. Seu olhor doce é de jabuticabas ainda... Agora entendo de onde traz isso... As formigas não montarão seu esqueleto porque você permanece vivo, formiga só monta ossos mortos. Eu juro que, se eu o matasse, as formigas sairiam imediatamente da pensão e montariam seu esqueleto, pois sua altura aqui é pequenina como um anão. Atrevo um pouco e digo algo sobre o formigueiro que não aparece na imagem. Você não liga, mas continua com o mesmo tom entorpecido (talvez porque o que disse não tenha sido palavras!). Queria perguntar o que faz aí parado tanto tempo. Aqui dentro sou todo Alice interiormente, como se quisesse sair da toca, mesmo não estando nela. Talvez, realmente não tenha coragem de dizer algo agora. Ou não esteja na hora de me ver fumaça! Não vou pousar à foto. Eu me escondo aqui, agachado, para não aparecer nesse quarto. Morri sim, porque estou dentro de um mundo que não é de platiplanto. Morri, mas sou novamente, e novamente vou morrer para nascer novamente. Ininterruptamente, continuo escondido dentro da imagem e não sei se conseguirei transformá-la em cinema... Não se incomode com minha presença! Não se incomode, querido irmão!
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