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terça-feira, 7 de junho de 2011

Ensinamento Pagão

Tenho uma família guerreira! Eu mesmo sou de paz, mas não nego as batalhas. Eduquei meus filhos nos trilhos do amor próprio e sempre acreditei que tudo existe como símbolo... então, dizia aos meninos "aos doze anos quero uma prova de sua existência". O primeiro entendeu bem o que eu disse: foi coroado mestre em xadrez aos onze. O segundo, ainda meio cambaleate, fruto da precoce juventude, engravidou uma garota da mesma idade. Tudo conforme havia ensinado... eram homens!

Mas como na vida há sempre um terceiro, meu caçula fez questão de me deixar em parafusos. Ainda aos três anos, apresentou uma garota dizendo ser sua namorada - coisa de criança é sempre bonitinha! Minha esposa Maria, que deus a tenha, ficava com a pulga atrás da orelha. Olhava de lado, procurando observar o que o casal de pombinhos fazia no quarto. Ela entrava sem porquê, ele parava e observava a mãe, até ela sair do recinto.

Quando Judas, o caçula, completou quatro anos - era a festa de aniversário -, ele não foi encontrado em casa. As comemorações tiveram de ser encerradas, porque o aniversariante não estava presente. Todos pensaram no pior, sequestro ou coisa parecida. Passou pela minha cabeça que, se pedissem resgate, entregaria minha mulher... não entendo bem, mas toda vez que estou numa situação ameaçadora, penso besteira. Não, não era resgate, nem mesmo sequestro! Judas foi encontrado num quarto com Dimas, um amigo da mesma idade, e Gabriela, a namorada deles. É, os dois namoravam a garotinha Gabi. Mais uma vez a idade foi usada como justificativa - crianças e só!

As coisas foram ficando cada vez mais acentuadas, mas a idade continuava uma chave para entender aquele fenômeno. Eu, que desde muito novo sou educador, não tenho diploma, mas sei educar, percebi ali um quê de genialidade no meu filho. Não pude externar isso, para não gerar inveja nos mais velhos. Apesar disso, já era claro a precocidade do garoto. Aos seis anos conseguiu o título de grande mestre em xadrez. Desafiara grandes adversários e a vitória era quase sempre uma aliada. Em todos os jogos oficais, perdera apenas um... contra Gabriela. Há aí uma controversa: alguns sustentam que ele perdeu para não magoar a namorada, outros dizem que Gabi usou de jogo sujo - encostando as pernas nele, debaixo da mesa. O fato é que viviam naturalmente: ele, ela e ele.

Para que meus filhos entendessem a vida como símbolo, tive que dar algumas demonstrações. Eles nasceram todos no dia de natal, isso porque via neles um ar de Jesus. Não aquele que veio para salvar o mundo ou morrer numa cruz, jamais! O contrário, aquele que ensinava "padre a rezar", aquele que transformava água em vinho ou que dizia "não é chegada a sua hora". Esse era o verdadeiro! Dizia aos pequenos que queria vê-los como aquele ser que falava por parábolas. Fiz mais! Todos nasceram no quintal de casa, sobre palhas, e era sempre parto normal. Desenvolvi esse método e funcionou, eles se tornaram grandes deuses de si.

Os doze anos estavam se aproximando de Judas. Lembrei-me que meu primogênito, além de ser coroado aos aoze mestre em xadrez, foi, por conta própria, à selva. Era uma fazenda de um grande amigo, Pedro, e ele ficou por lá, entre os animais, quinze dias - pensei ser símbolo suficiente para a consagração de sua humanidade. Meu menino do meio, também não ficou satisfeito em engravidar a moça, e lançou-se à mata fechada. Após quinze dias enfurnado na fazendo de Pedro, reserva ambiental e patrimônio da humanidade, ele saiu de lá trazendo uma sucuri. Já tínhamos consolidado a fazenda de Pedro como palco ao ritual.

Chegada a vez de Judas! Quinze dias antes de completar doze anos foi lançando selva adentro. Os quinze dias passaram e todos começaram a cogitar hipóteses: dever estar lutando contra os leões, matando onças, vivendo com os animais etc. Doze anos já se passaram, ele não apareceu ainda, e até hoje continuam as especulações...

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